A vergonha do passado que ainda o define
“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
Você finalmente conquistou algo que custou anos a alcançar. Um novo trabalho, uma posição de confiança na igreja, o respeito de pessoas que antes duvidavam de si. E, no meio da alegria, alguém faz um comentário sobre um erro antigo, uma fase da sua vida que preferia esquecer, e tudo o orgulho que sentia desaba num instante. A vergonha do passado tem esse poder estranho: consegue anular, num segundo, aquilo que levou anos a construir.
O apóstolo Paulo sabia bem o que era carregar um passado pesado. Antes de conhecer a Cristo, tinha perseguido duramente os primeiros cristãos, concordando até com a morte de alguns deles. Depois de se converter, tornou-se um dos maiores anunciadores da fé que antes tinha combatido. Mas o passado não desapareceu da sua memória: mais tarde, já como líder respeitado, ele próprio se descreveu como alguém que não merecia o lugar que ocupava, por causa daquilo que tinha feito antes. Paulo não fingiu que aquela fase nunca tinha existido. Também não deixou que ela apagasse o chamado que agora vivia.
A tentação, diante da vergonha do passado, é tentar apagar a memória por completo: evitar falar no assunto, fingir que aquela pessoa de antes nunca existiu, corrigir a história para que pareça mais limpa do que foi. Isto raramente funciona. A memória continua ali, e o esforço de escondê-la só a torna mais pesada, porque agora carrega também o medo de que alguém descubra. A virada de percepção que Paulo viveu, e que ele mesmo escreveu numa carta, é diferente: tornar-se nova criatura em Cristo não significa apagar o que aconteceu. Significa que aquilo que aconteceu já não define quem você é hoje.
Nova criatura não é apagar a memória
Muita gente entende "as coisas velhas já passaram" como se fosse uma borracha que apaga a história inteira, como se a pessoa que cometeu aquele erro nunca tivesse existido. Não é essa a promessa. A memória continua a existir; o que muda é o lugar que ela ocupa. Antes, a memória definia quem você era — "sou aquela pessoa que fez aquilo". Depois, a memória passa a ser apenas uma parte da sua história, não a definição inteira dela. É a diferença entre carregar uma cicatriz e continuar a sangrar pela mesma ferida todos os dias.
Contar a história sem se afundar nela
É possível falar sobre o seu passado, quando for necessário ou útil, sem se afundar de novo nele. Isto significa contar os factos com honestidade, sem se refugiar em detalhes desnecessários que só reabrem a ferida, e sem se apresentar como se ainda fosse aquela pessoa. Imagine alguém que, ao partilhar a sua história com outra pessoa que atravessa algo parecido, consegue falar do que viveu com serenidade, não porque deixou de doer por completo, mas porque já não é definido por aquilo. Contar a história pode até ajudar outra pessoa a não se sentir sozinha na sua própria vergonha.
Quando confessar e quando calar
Nem tudo precisa de ser partilhado com todas as pessoas. Há uma diferença entre confessar algo a Deus e a alguém de confiança, o que traz alívio e cura, e expor detalhes do seu passado a qualquer pessoa, em qualquer momento, sem necessidade real. Antes de contar algo do seu passado, pergunte-se: isto vai ajudar quem está a ouvir, ou apenas vai satisfazer a curiosidade de alguém? Guardar discrição sobre certos capítulos da sua vida não é hipocrisia; é discernimento sobre quando e com quem partilhar.
Quando isto não parece resultar
E se a vergonha voltar com força, mesmo depois de anos, mesmo depois de ter entregado tudo a Deus? Isto acontece com mais gente do que se imagina, e não significa que a transformação não foi real. A resposta, nesses momentos, não é fingir que não sentiu nada, nem tentar convencer-se à força de que já não se importa. É lembrar, com calma, quem você é hoje, e recusar deixar que uma lembrança antiga volte a escrever a história inteira da sua vida.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, obrigado por nos fazeres novas criaturas em ti. > Ajuda-nos a não fugir da nossa própria história, nem a ficar presos a ela. > Dá-nos discernimento para saber quando falar e quando guardar silêncio. > Ensina-nos a olhar para o passado sem deixar que ele decida o nosso valor hoje.
A conquista de hoje já não precisa de desabar por causa de uma lembrança de há dez anos. A vergonha do passado pode continuar a aparecer de vez em quando, mas já não tem autoridade para definir quem você é agora. Escolha uma pessoa de confiança esta semana e conte-lhe essa parte da sua história — muitas vezes é precisamente aí, ao ser ouvido sem julgamento, que a vergonha começa finalmente a perder o seu peso.
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