O cônjuge não quer ser corrigido, quer ser ouvido
“Assim que, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.”
Ela chega a casa e começa a contar o dia difícil que teve - a colega que a tratou mal, a pressão no trabalho, o cansaço acumulado. Ainda não terminou a segunda frase e ele já tem a solução pronta: "Devias falar com o teu chefe", "Porque não simplesmente ignoras isso?", "Faz assim da próxima vez." Quinze segundos depois de ela ter começado a falar, ele já resolveu o problema - pelo menos na cabeça dele. Só que ela não queria uma solução. Queria ser ouvida. E a conversa, que começou como um desabafo, termina em discussão, porque agora ela sente-se sozinha com o problema e, ainda por cima, mal compreendida por quem devia estar mais próximo.
Este é, talvez, um dos padrões mais comuns e mais mal compreendidos na comunicação no casamento: um fala para desabafar, o outro ouve para resolver, e os dois saem da conversa frustrados, sem perceber exactamente porquê.
Imagine um casal em que isto acontece quase todas as noites. Ela chega, começa a partilhar o que a incomodou durante o dia, e ele, com a melhor das intenções - porque a ama e não suporta vê-la aflita -, interrompe com sugestões práticas. Ela sente-se cada vez mais irritada, sem perceber bem porquê, já que as sugestões dele, tecnicamente, até fazem sentido. Ele, por sua vez, sente-se cada vez mais confuso e magoado - "estou só a tentar ajudar, porque é que isto vira sempre discussão?" Tentaram resolver isto ele fazendo ainda mais esforço para dar boas sugestões, e ela tentando explicar melhor o problema para que a solução dele fosse mais precisa. Nenhuma das duas tentativas resolveu nada, porque nenhuma tocava no verdadeiro problema.
O verdadeiro problema não era a qualidade das sugestões dele, nem a clareza da explicação dela. Era que ela não estava, de facto, à procura de uma solução naquele momento - estava à procura de ser ouvida, validada, acompanhada na frustração antes de sequer pensar em resolver o que quer que fosse.
Pronto para ouvir, tardio para falar
Tiago 1:19 dá uma instrução na ordem certa: pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar. Repare que "ouvir" vem primeiro, e "falar" vem depois, e com calma. Muitos de nós invertemos esta ordem sem perceber: ficamos prontos para falar - para aconselhar, corrigir, resolver - e só depois, se sobrar tempo, ouvimos de facto o que a outra pessoa disse.
Ouvir, na prática, não é apenas ficar calado enquanto o outro fala, à espera da vez de responder. É prestar atenção real ao que está a ser dito, sem já estar a preparar a resposta ou a solução na cabeça enquanto o outro ainda fala. No caso do casal do exemplo, ele estava tecnicamente a "ouvir" - as palavras chegavam aos ouvidos -, mas a mente já estava ocupada a montar a solução, e não a acompanhar o que ela realmente sentia.
Escuta sem resolver
Aqui está uma distinção que muda a qualidade da comunicação num casamento: nem toda partilha pede solução. Às vezes, a pessoa que fala só precisa de organizar os próprios pensamentos em voz alta, sentir que não está sozinha com o problema, ser validada no que sente antes de sequer pensar em agir.
Escutar sem resolver significa responder com frases como "isso deve ter sido mesmo difícil" ou "estou aqui, conta-me mais", em vez de saltar directamente para "devias fazer isto". Não significa que sugestões nunca sejam bem-vindas - significa que há um tempo certo para elas, e normalmente esse tempo vem depois, não antes, de a pessoa se sentir ouvida.
No caso daquele casal, quando ele começou a experimentar simplesmente ouvir, sem sugerir nada, nos primeiros minutos da conversa, notou uma mudança real: ela relaxava mais depressa, e muitas vezes chegava sozinha a uma decisão sobre o que fazer, sem precisar da solução dele. E quando precisava mesmo de um conselho, pedia-o directamente - o que tornava mais fácil para ele saber quando a sugestão era, de facto, bem-vinda.
Perguntar antes de aconselhar
Uma ferramenta simples que ajuda a evitar este padrão é perguntar, antes de aconselhar: "Queres que eu te ajude a pensar numa solução, ou só precisas que eu te ouça agora?" Esta pergunta parece pequena, mas muda tudo - dá à pessoa que fala o controlo sobre o tipo de resposta que precisa, e evita que quem escuta assuma, por instinto, que toda partilha é um pedido de conselho.
Esta pergunta também protege quem ouve de se sentir rejeitado quando a sua sugestão, bem-intencionada, não é bem recebida. Em vez de sentir "estou a tentar ajudar e sou mal compreendido", passa a saber, de antemão, o que realmente é pedido naquele momento.
Quando isto não parece resultar
Alguns casais tentam esta pergunta e sentem-se estranhos a fazê-la, como se fosse artificial ou desnecessariamente formal. Com o tempo, à medida que se torna hábito, deixa de soar estranha e passa a ser apenas parte natural da conversa. O erro mais comum é desistir da pergunta na primeira vez que soa esquisita, voltando ao padrão antigo de aconselhar sem perguntar.
E se, mesmo depois de pedir para só ouvir, quem ouve sentir uma necessidade quase incontrolável de sugerir soluções, por genuína preocupação? Ajuda lembrar que ouvir sem resolver não é ficar indiferente ao problema - é confiar que a outra pessoa é capaz de pensar sozinha, e que o seu papel, naquele momento, é companhia, não resgate.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, ensina-nos a ouvir antes de falar, como a tua Palavra pede. > Ajuda-nos a não confundir amor com resolver tudo pelo outro. > Dá-nos paciência para escutar sem pressa de responder. > Que o nosso cônjuge sinta, em nós, um lugar seguro para desabafar. > Amém.
A conversa que costumava acabar mal, com ela frustrada e ele confuso, mudou no dia em que ele decidiu apenas perguntar antes de aconselhar. A comunicação no casamento melhora, muitas vezes, não com mais palavras, mas com mais escuta genuína - pronto para ouvir, tardio para falar. Hoje, escolha ouvir o seu cônjuge durante dez minutos, sem sugerir nada.
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