Quando até quem tem fé fica sem forças
“E ele foi-se pelo deserto caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, Senhor, toma agora a minha vida. Então se deitou, e dormiu debaixo do zimbro; e eis que um anjo o tocou, e lhe disse: Levanta-te, e come. E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um bolo cozido sobre as brasas, e um jarro de água; e comeu, e bebeu, e tornou a deitar-se. E voltou o anjo do Senhor segunda vez, e o tocou, e disse: Levanta-te, e come, porque o caminho é comprido demais para ti. Então ele se levantou, e comeu e bebeu; e com a força daquela comida caminhou quarenta dias e quarenta noites, até Horebe, o monte de Deus.”
Há um tipo de cansaço que não passa com uma noite de sono, mesmo depois da maior vitória da sua vida. Você orou, lutou, insistiu, viu Deus agir de um jeito que quase não esperava — e no dia seguinte não consegue nem levantar da cama. Não sente vontade de orar, nem de servir, nem de conversar com ninguém. Só quer que tudo pare por um momento. Se alguma vez se sentiu assim, sem forças espiritualmente logo a seguir a um momento que devia ser de alegria, precisa de saber uma coisa antes de mais nada: isto não é falta de fé. E também não é o fim da sua fé.
A Bíblia conta a história de um profeta chamado Elias que viveu exactamente isto. Pouco antes, ele tinha enfrentado sozinho quatrocentos e cinquenta profetas de um deus falso, no topo do Monte Carmelo, diante de todo o povo de Israel. Orou, e o fogo desceu do céu diante de todos os que ali estavam. Foi, sem exagero, o momento mais alto de toda a vida daquele homem. O povo caiu com o rosto em terra a reconhecer que só havia um Deus verdadeiro.
Poucas horas depois desse triunfo, chega uma ameaça: a rainha Jezabel jura tirar-lhe a vida até ao dia seguinte. E o mesmo homem que tinha acabado de ver fogo cair do céu por causa da sua oração foge sozinho para o deserto, senta-se debaixo de uma árvore e pede a Deus que o deixe morrer ali mesmo. Diz que já chega, que não é melhor do que os seus antepassados, que quer desistir de tudo.
A primeira reacção de Elias foi tentar resolver aquilo sozinho: fugir mais, afastar-se de todos, deitar-se e esperar que a vida terminasse. Isso não resolveu nada. O cansaço continuou. O medo continuou. A vontade de desistir continuou. E é exactamente aqui que a história dá a volta que interessa: Deus não manda um anjo para o repreender por ter medo depois de tanta fé. Manda um anjo tocar nele, com uma ordem muito simples: levanta-te e come. Só depois de Elias comer, beber e dormir de novo, o anjo volta e insiste outra vez, porque o caminho ainda era longo demais para ele no estado em que estava.
Repare no que isto muda na forma de olhar para o problema. A questão de Elias não era a fé — ele tinha acabado de a ver confirmada de forma impressionante diante de uma nação inteira. O problema era que nem um profeta é feito só de espírito. Corpo e alma cansam-se juntos, e o primeiro socorro que Deus escolheu dar não foi um sermão nem uma explicação profunda sobre o sentido do sofrimento. Foi um prato de comida e uma soneca.
O vazio que vem depois do pico
É comum sentir-se mais vazio depois de um grande esforço espiritual do que durante a própria dificuldade que o antecedeu. Enquanto a crise dura, o corpo mantém-se em alerta, como se estivesse a segurar tudo com as próprias mãos, dia após dia. Quando a crise passa, ou quando a vitória finalmente chega, esse estado de alerta cai de repente — e é frequentemente aí que muita gente sente uma tristeza que não sabe explicar. Talvez isto lhe tenha acontecido depois de organizar algo importante na sua congregação, depois de atravessar uma fase difícil com muita oração e serviço, ou depois de ver finalmente resolvido um problema que o consumia há meses. Em vez do alívio esperado, veio um vazio estranho, quase uma tristeza sem motivo aparente. Isso não significa que a sua fé enfraqueceu. Significa apenas que gastou muito de si mesmo e ainda não teve tempo de recuperar.
O que lhe foi dado primeiro: pão e sono
Repare bem na ordem da história de Elias: antes de qualquer conversa, antes de qualquer correcção, antes de qualquer lição espiritual mais profunda, Deus cuidou do corpo dele. Muitas vezes tentamos resolver o cansaço espiritual apenas com mais oração, mais jejum, mais esforço — e isso, em vez de curar, pode aprofundar ainda mais o esgotamento. Cuidar do corpo, comer bem, descansar, parar uma actividade que pode esperar mais um dia, não é falta de espiritualidade. Foi o próprio Deus quem escolheu começar por aí, com um homem que Ele mesmo tinha usado de forma extraordinária poucas horas antes. Se está sem forças espiritualmente, talvez a primeira oração sincera que precise de fazer hoje seja simplesmente aceitar um prato de comida e uma noite de sono decente, sem se sentir culpado por isso.
Quando o corpo pede socorro antes da alma — e quando procurar ajuda profissional
Há uma diferença entre o cansaço que passa com alguns dias de descanso e algo mais profundo, que se arrasta por semanas: tristeza persistente, desânimo que não passa, uma vontade de desistir de tudo que continua mesmo depois de dormir e comer bem. Se é isso que sente, este texto não pretende resolver tudo sozinho, nem vai fingir que sabe explicar completamente o que se passa consigo. O que se pode dizer com segurança é isto: procurar um pastor de confiança e, quando for necessário, um profissional de saúde — médico ou psicólogo — não é sinal de pouca fé. É sabedoria e cuidado próprio. Elias teve um anjo a cuidar dele fisicamente antes de qualquer outra coisa. Você também merece esse mesmo cuidado, e não precisa de enfrentar isto sozinho nem de esperar que o cansaço desapareça por si mesmo, sem apoio de ninguém.
Quando isto não parece resultar
Talvez pense: "já descansei, já dormi, já comi bem, e continuo sem forças." Isso não significa que fez algo errado. O descanso físico ajuda muito, mas não substitui um acompanhamento mais atento quando o cansaço é mais profundo do que uma simples noite mal dormida. Não há vergonha nenhuma em precisar de mais do que isso. O erro não está em procurar ajuda — o erro seria continuar sozinho, à espera que o cansaço desapareça por milagre, sem falar com ninguém sobre o que sente.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, hoje reconhecemos que não somos feitos só de espírito. > Obrigado por cuidares do nosso corpo antes de exigires mais da nossa alma. > Dá-nos coragem para procurar ajuda quando precisamos, sem vergonha nem pressa de esconder o que sentimos. > Coloca ao nosso lado alguém de confiança para este momento, e ensina-nos a aceitar esse cuidado.
Lembra-se da pessoa debaixo da árvore, no início deste texto, sem forças para se levantar mesmo depois da maior vitória da sua vida? Essa pessoa achava que tinha de resolver tudo sozinha, ou fingir que estava bem até que a força voltasse por si. A diferença, agora, é saber que comer, dormir e falar com alguém de confiança também fazem parte da fé — não são um desvio dela. Se está sem forças espiritualmente hoje, não deixe passar mais um dia sozinho: procure alguém de confiança ainda hoje e dê o primeiro passo que até um profeta como Elias precisou de dar.
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