Avós que educam netos sem desautorizar os pais
“Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti.”
A mãe deixa o filho em casa da avó às sete da manhã e vai para o trabalho. Antes de sair, avisa: nada de televisão até fazer os trabalhos da escola. Ao fim da tarde, quando volta, encontra o menino no sofá, com os cadernos fechados, e ouve a avó dizer, a sorrir: "Deixa lá, coitado, estava cansado."
Ninguém ali quis fazer mal. A avó ama o neto e acha que a filha é demasiado rígida. A mãe sente que a sua palavra não vale nada naquela casa. E a criança, que não é tola, aprendeu uma coisa nova: quando a mãe diz não, há outra porta onde bater.
Em muitas famílias angolanas, os avós não são visitas de domingo. São quem leva à escola, quem dá o almoço, por vezes quem cria os netos durante anos enquanto os pais trabalham noutra província ou fora do país. Essa ajuda é uma bênção. Mas tem um risco que convém olhar de frente.
A fé que passou pela mãe, e não por cima dela
Paulo escreve a segunda carta a Timóteo quando está preso e sente que o fim da sua vida está próximo (2 Timóteo 4:6). Timóteo é jovem, tem responsabilidades pesadas na igreja e precisa de coragem. Para o animar, Paulo lembra-lhe de onde vem a fé que ele tem: habitou primeiro na avó, Lóide, depois na mãe, Eunice, e agora nele.
O livro de Actos diz-nos que o pai de Timóteo era grego e que a mãe era uma judia crente (Actos 16:1). Foi em casa, com aquelas duas mulheres, que ele conheceu as Escrituras desde menino (2 Timóteo 3:15). Repare na ordem que Paulo descreve: da avó para a mãe, da mãe para o filho. Não é uma avó que forma o neto por cima da filha. É uma corrente em que cada geração passa à seguinte o que recebeu.
É este o lugar mais bonito para um avô ou uma avó: não substituir os pais, mas reforçar o que eles estão a construir. A sua palavra tem peso na família, e por isso mesmo pode sustentar a autoridade dos seus filhos ou parti-la ao meio.
Discorde longe da criança
Vão surgir desacordos. Você criou filhos, tem experiência, e há decisões dos pais que lhe parecem erradas. Não precisa de fingir que concorda. Precisa de escolher onde diz o que pensa.
A regra é simples: à frente do neto, apoie a decisão dos pais. Longe dele, fale com o seu filho ou com a sua filha. Pode ser assim: "Hoje fiz como pediste. Mas gostava de te dizer o que penso sobre isto, se me deixares."
Evite as frases que desfazem a autoridade sem parecer: "A tua mãe exagera", "No meu tempo não era assim", "Não contes ao teu pai". A última é a mais perigosa. Ensina a criança que esconder coisas dos pais é uma forma de carinho.
E se o neto disser "a avó deixa", responda sem hesitar: "Aqui fazemos como a tua mãe combinou."
O que é seu decidir e o que não é
Nem tudo precisa de ser igual nas duas casas. Em sua casa pode haver os seus costumes, a sua comida, as suas histórias, a sua hora de oração. Isso enriquece a criança.
Um critério ajuda a distinguir: os pais pediram isto expressamente? Se pediram, cumpra, mesmo que discorde. Se é um assunto sobre o qual nunca falaram, use o seu juízo e conte-lhes depois com naturalidade. Castigos, ecrãs, doces, horas de deitar, o que a criança pode ver e com quem pode sair: se há uma regra dos pais, ela vale também em sua casa.
O caso muda quando os netos vivem consigo durante anos e os pais estão longe. Aí você tem de decidir muita coisa todos os dias, e é justo que decida. Mesmo assim, mantenha os pais por perto: telefone-lhes antes das decisões grandes e fale bem deles à criança. Um neto criado pela avó não deve crescer a sentir que tem de escolher entre ela e a mãe.
Uma palavra para os pais
Se é você quem deixa os filhos com os seus pais, também tem a sua parte. O mandamento de honrar pai e mãe (Êxodo 20:12) não termina quando você casa e tem filhos. Muda de forma, mas continua.
Três cuidados fazem diferença. Diga as regras com clareza e antes, em vez de criticar depois. Escolha poucas, as que considera essenciais, porque quem tenta controlar tudo acaba por não ser ouvido em nada. E não corrija os seus pais à frente dos seus filhos, pela mesma razão que lhes pede a eles que não o desautorizem.
Agradeça também. Quem toma conta de uma criança o dia inteiro está a dar tempo, paciência e forças que já não são as de antes. Uma avó que se sente usada e nunca ouvida terá mais dificuldade em respeitar regras que não ajudou a pensar.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, obrigado pelos avós que cuidam dos nossos filhos e pelos pais que nos confiam os netos. > Dá-nos humildade para apoiar a autoridade uns dos outros diante das crianças. > Ensina-nos a discordar com respeito e longe dos mais pequenos. > Que a fé passe na nossa família de geração em geração, como passou de Lóide para Eunice e de Eunice para Timóteo. Amém.
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