Ensinar os filhos a pedir perdão a sério
“Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.”
Dois irmãos discutem por causa do comando da televisão. Um empurra, o outro chora, e da cozinha vem a voz que todos conhecem: "Pede desculpa ao teu irmão, já!" O mais velho olha para o chão, diz "desculpa" num tom que quer dizer exactamente o contrário, e volta para o sofá. Dez minutos depois, a mesma briga recomeça.
Você conseguiu a palavra. Não conseguiu o que a palavra devia significar. E se isto se repete todas as semanas, a criança está a aprender uma lição que você nunca quis ensinar: que "desculpa" é o preço que se paga para o sermão acabar.
Uma palavra arrancada não é arrependimento
Exigir o pedido de desculpa no auge da zanga tem um problema simples: a criança ainda acha que tem razão. Obrigada a falar, diz o que você quer ouvir e guarda o que realmente sente. Aprende a fingir, não a reconhecer.
Isto não quer dizer que deva deixar passar. Quer dizer que a ordem importa. Primeiro, separe os dois e deixe a raiva baixar. Depois, converse a sós com quem errou: o que aconteceu, o que fez, como acha que o irmão ficou. Só então lhe peça que vá falar com ele. Um pedido de perdão que leva meia hora a nascer vale mais do que dez arrancados à força.
Um critério útil: se a criança ainda está a explicar por que razão o outro mereceu, não está pronta para pedir perdão. Ainda está a defender-se. Continue a conversa, sem pressa e sem sermão.
Ir primeiro ao irmão
Em Mateus 5, Jesus está a mostrar que o mandamento "Não matarás" vai mais fundo do que o crime. Chega à ira e às palavras de desprezo contra o irmão. E dá um exemplo que devia surpreender quem o ouvia: alguém está no templo, com a oferta diante do altar, e lembra-se de que o irmão tem alguma coisa contra ele. Jesus manda-o deixar ali a oferta, ir reconciliar-se primeiro, e só depois voltar.
Repare em quem tem de se mexer. Não é o ofendido, é quem sabe que ofendeu. E repare na urgência: nem a oferta a Deus espera. Para Jesus, uma relação ferida entre irmãos não é um assunto menor que se resolve mais tarde.
É isto que você quer passar aos seus filhos. Não "diz a palavra para eu te deixar em paz", mas "quando percebes que magoaste alguém, és tu que vais ter com ele". Uma criança que aprende isto em casa leva-o para o casamento, para o trabalho e para a igreja.
O que um pedido de perdão verdadeiro tem
Quando o filho pródigo decidiu voltar, preparou o que ia dizer: "Pai, pequei contra o céu e perante ti" (Lucas 15:18). Não pôs a culpa na fome, nem nos amigos, nem em ninguém. Disse o que fez. Zaqueu, quando reconheceu que tinha defraudado pessoas, não ficou pelas palavras: prometeu restituir quatro vezes mais (Lucas 19:8).
Daqui saem três partes que uma criança consegue aprender:
Para uma criança pequena, basta a primeira parte e um gesto. A um adolescente, pode pedir as três. Com o tempo, deixe de ditar a frase e pergunte apenas: "O que vais dizer ao teu irmão?"
E ensine também quem foi ofendido. Quase todas as famílias respondem a um pedido de desculpa com "não faz mal". Mas fez mal, por isso é que houve pedido. Troque essa resposta por "perdoo-te". "Não faz mal" diz que nada aconteceu. "Perdoo-te" diz que aconteceu, que doeu, e que mesmo assim escolho não guardar. É assim que Deus nos trata: não finge que o pecado não existiu, perdoa-o (Efésios 4:32). E não obrigue o ofendido a abraçar e sorrir no mesmo segundo. Pode perdoar e precisar de um bocado antes de voltar a brincar.
Quando quem tem de pedir perdão é você
Nenhuma lição sobre perdão pesa tanto como ver o pai ou a mãe a pedir perdão. Se gritou com o seu filho por uma coisa pequena, se o acusou sem o ouvir, se prometeu e não cumpriu, vá ter com ele. A Bíblia avisa os pais para não provocarem os filhos à ira (Efésios 6:4), e um erro do adulto que nunca é reconhecido é uma maneira certa de o fazer.
Muitos pais têm medo de perder a autoridade. Não a perdem, se souberem separar duas coisas: a regra e a maneira. "Ontem gritei contigo por causa dos sapatos na sala. Não devia ter gritado. Peço-te perdão. Mas os sapatos continuam a não poder ficar ali." A regra fica de pé. O que caiu foi o grito, e foi você que o reconheceu.
Um filho que ouve isto aprende que pedir perdão não é coisa de quem perdeu a discussão. É coisa de gente crescida.
Como viver isto hoje
Oração
> Pai, perdoa-nos as vezes em que exigimos dos nossos filhos o que nós próprios não fazemos. > Ensina-nos a reconhecer os nossos erros diante deles, sem orgulho e sem medo. > Dá às nossas casas o hábito de ir primeiro ao irmão, antes de qualquer oferta. > E que os nossos filhos aprendam connosco a perdoar como tu nos perdoaste em Cristo. Amém.
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