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Oração

Jejum: para que serve mesmo

06 de agosto de 20266 min de leitura
Jejum: para que serve mesmo
Versículo Âncora — Mateus 6:16-18

E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas ao teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Referência marcada para validação pastoral adicional na Bíblia.

Há quem comece um jejum como quem faz uma última cartada: já pediu de todas as formas, já esperou o tempo que considerou razoável, e decide jejuar porque ouviu dizer que isso obriga Deus a responder mais depressa. Passa o dia com fome, o humor cada vez mais curto, a contar as horas até à refeição seguinte, e no fim do jejum a resposta continua igual: nada mudou. A sensação que fica não é de proximidade com Deus, é de cansaço e, muitas vezes, de uma frustração silenciosa, como quem jejuou e sentiu que não resultou.

Se alguma vez pensou nisto, vale a pena perguntar: para que serve o jejum, afinal? Porque se a resposta for para forçar uma resposta de Deus, o jejum vai continuar a decepcionar, por mais vezes que se repita.

Imagine alguém que decide jejuar três dias porque precisa muito de ver uma decisão importante resolvida a seu favor. Nos primeiros dois dias, a mente está inteiramente ocupada com a fome e com a contagem decrescente até ao terceiro dia, o dia em que espera a resposta. Chega o terceiro dia, come normalmente à noite, e a situação continua exactamente como estava antes. A pessoa sente-se enganada, como se tivesse cumprido a sua parte de um acordo e Deus não tivesse cumprido a d'Ele.

O que aconteceu, na verdade, foi que o jejum foi tratado como moeda de troca: paga-se com fome, espera-se pagamento em resposta. Mas essa não é a lógica que a Bíblia ensina sobre o jejum. E quando se insiste nesta lógica errada, o jejum deixa de ser um tempo de aproximação de Deus e passa a ser apenas uma negociação que corre mal.

A virada de percepção começa quando se entende que o jejum nunca foi um botão para acelerar respostas. Foi sempre um espaço para afinar algo por dentro, não para pressionar algo por fora.

O verdadeiro problema, portanto, não é o jejum em si, nem sequer a fé de quem jejua. É a expectativa errada colocada sobre ele. E é isso que Jesus corrige directamente quando fala sobre como jejuar.

Jejum não é moeda de troca

Em Mateus 6, Jesus fala do jejum já assumindo que os seus ouvintes jejuavam, sem pôr isso em causa. O que Ele corrige é a intenção com que se jejua. As pessoas de que Jesus fala jejuavam para serem vistas, para parecerem espirituais aos olhos dos outros. Jesus não critica o jejum, critica o jejum transformado em espectáculo ou em barganha.

O mesmo aviso serve para quem jejua a pensar em obrigar Deus a agir. Se o jejum for tratado como pagamento antecipado por um milagre, a pessoa está a colocar Deus numa posição de devedor, o que nunca foi a proposta bíblica. Deus não precisa de ser convencido pela sua fome. Ele já conhece o seu coração antes de começar o jejum.

O que se afina por dentro

Se o jejum não serve para forçar respostas, para que serve então? Serve para criar espaço. Quando se retira algo do corpo, mesmo que temporariamente, cria-se um vazio que normalmente é preenchido por comida, distracção ou rotina. Esse vazio, quando entregue a Deus em oração, ajuda a pessoa a perceber do que realmente depende para se sentir bem: de Deus, ou de conforto imediato.

É um exercício de humildade prática. A fome lembra, ao longo do dia, que há uma dependência maior do que a comida. Não muda a vontade de Deus, mas pode mudar a atenção de quem jejua, tornando-a mais concentrada, mais disposta a ouvir em vez de apenas pedir.

Como jejuar com saúde e discrição

Jejuar não exige demonstrações. Jesus é claro ao dizer que quem jejua deve fazê-lo sem parecer sofrido diante dos outros, cuidando da própria aparência normalmente, guardando o assunto entre si e Deus. Isso também inclui bom senso com a saúde: um jejum não deve ser feito de forma que ponha em risco alguém com uma condição de saúde específica, e nestes casos o mais sensato é procurar orientação médica antes de decidir o tipo e a duração do jejum. A espiritualidade não exige negligência com o corpo que Deus também criou.

Um jejum simples, curto e feito com discrição, acompanhado de oração sincera, costuma valer mais do que um jejum longo e público feito apenas para provar empenho.

Quando isto não parece resultar

O erro mais comum é medir o valor de um jejum pelo resultado imediato que ele produziu. Se a resposta esperada não vier logo a seguir, a pessoa conclui que não funcionou ou que fez algo de errado. Mas o jejum nunca foi um mecanismo de causa e efeito automático. É um tempo de proximidade com Deus, cujo fruto muitas vezes não é visível de imediato, é interior: mais clareza, mais paz, mais disposição para confiar mesmo sem resposta.

E se, depois de jejuar, a situação continuar exactamente igual? Isso não invalida o jejum. Significa apenas que a resposta de Deus para aquela situação segue outro tempo, que não está sob o seu controlo, nem nunca esteve.

Como viver isto hoje

  • Antes de jejuar, escreva numa frase qual é a sua verdadeira intenção: aproximar-se de Deus ou forçar uma resposta.
  • Escolha um formato simples e sustentável, de acordo com a sua saúde, e mantenha-o discreto, sem anunciar aos outros.
  • Reserve, durante o jejum, um tempo específico de oração e leitura da Bíblia, em vez de apenas esperar passar a fome.
  • Oração

    > Senhor, perdoa-nos quando tentamos usar o jejum como moeda de troca contigo. > Ensina-nos a jejuar para nos aproximarmos de ti, não para te pressionar. > Afina em nós aquilo que precisa de mudar por dentro. > Dá-nos paz mesmo quando a resposta ainda não chegou.

    A pessoa que antes jejuava a contar horas até à resposta pode aprender a jejuar de outra forma: sem cronómetro, sem exigência, apenas com o coração mais atento a Deus do que ao próprio estômago. Para que serve o jejum, no fim de contas, não é para acelerar milagres, é para aproximar quem jejua d'Aquele a quem jejua. Leia também o nosso artigo sobre oração para aprofundar este caminho.

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