Jejum: para que serve mesmo
“E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas, mas ao teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”
Há quem comece um jejum como quem faz uma última cartada: já pediu de todas as formas, já esperou o tempo que considerou razoável, e decide jejuar porque ouviu dizer que isso obriga Deus a responder mais depressa. Passa o dia com fome, o humor cada vez mais curto, a contar as horas até à refeição seguinte, e no fim do jejum a resposta continua igual: nada mudou. A sensação que fica não é de proximidade com Deus, é de cansaço e, muitas vezes, de uma frustração silenciosa, como quem jejuou e sentiu que não resultou.
Se alguma vez pensou nisto, vale a pena perguntar: para que serve o jejum, afinal? Porque se a resposta for para forçar uma resposta de Deus, o jejum vai continuar a decepcionar, por mais vezes que se repita.
Imagine alguém que decide jejuar três dias porque precisa muito de ver uma decisão importante resolvida a seu favor. Nos primeiros dois dias, a mente está inteiramente ocupada com a fome e com a contagem decrescente até ao terceiro dia, o dia em que espera a resposta. Chega o terceiro dia, come normalmente à noite, e a situação continua exactamente como estava antes. A pessoa sente-se enganada, como se tivesse cumprido a sua parte de um acordo e Deus não tivesse cumprido a d'Ele.
O que aconteceu, na verdade, foi que o jejum foi tratado como moeda de troca: paga-se com fome, espera-se pagamento em resposta. Mas essa não é a lógica que a Bíblia ensina sobre o jejum. E quando se insiste nesta lógica errada, o jejum deixa de ser um tempo de aproximação de Deus e passa a ser apenas uma negociação que corre mal.
A virada de percepção começa quando se entende que o jejum nunca foi um botão para acelerar respostas. Foi sempre um espaço para afinar algo por dentro, não para pressionar algo por fora.
O verdadeiro problema, portanto, não é o jejum em si, nem sequer a fé de quem jejua. É a expectativa errada colocada sobre ele. E é isso que Jesus corrige directamente quando fala sobre como jejuar.
Jejum não é moeda de troca
Em Mateus 6, Jesus fala do jejum já assumindo que os seus ouvintes jejuavam, sem pôr isso em causa. O que Ele corrige é a intenção com que se jejua. As pessoas de que Jesus fala jejuavam para serem vistas, para parecerem espirituais aos olhos dos outros. Jesus não critica o jejum, critica o jejum transformado em espectáculo ou em barganha.
O mesmo aviso serve para quem jejua a pensar em obrigar Deus a agir. Se o jejum for tratado como pagamento antecipado por um milagre, a pessoa está a colocar Deus numa posição de devedor, o que nunca foi a proposta bíblica. Deus não precisa de ser convencido pela sua fome. Ele já conhece o seu coração antes de começar o jejum.
O que se afina por dentro
Se o jejum não serve para forçar respostas, para que serve então? Serve para criar espaço. Quando se retira algo do corpo, mesmo que temporariamente, cria-se um vazio que normalmente é preenchido por comida, distracção ou rotina. Esse vazio, quando entregue a Deus em oração, ajuda a pessoa a perceber do que realmente depende para se sentir bem: de Deus, ou de conforto imediato.
É um exercício de humildade prática. A fome lembra, ao longo do dia, que há uma dependência maior do que a comida. Não muda a vontade de Deus, mas pode mudar a atenção de quem jejua, tornando-a mais concentrada, mais disposta a ouvir em vez de apenas pedir.
Como jejuar com saúde e discrição
Jejuar não exige demonstrações. Jesus é claro ao dizer que quem jejua deve fazê-lo sem parecer sofrido diante dos outros, cuidando da própria aparência normalmente, guardando o assunto entre si e Deus. Isso também inclui bom senso com a saúde: um jejum não deve ser feito de forma que ponha em risco alguém com uma condição de saúde específica, e nestes casos o mais sensato é procurar orientação médica antes de decidir o tipo e a duração do jejum. A espiritualidade não exige negligência com o corpo que Deus também criou.
Um jejum simples, curto e feito com discrição, acompanhado de oração sincera, costuma valer mais do que um jejum longo e público feito apenas para provar empenho.
Quando isto não parece resultar
O erro mais comum é medir o valor de um jejum pelo resultado imediato que ele produziu. Se a resposta esperada não vier logo a seguir, a pessoa conclui que não funcionou ou que fez algo de errado. Mas o jejum nunca foi um mecanismo de causa e efeito automático. É um tempo de proximidade com Deus, cujo fruto muitas vezes não é visível de imediato, é interior: mais clareza, mais paz, mais disposição para confiar mesmo sem resposta.
E se, depois de jejuar, a situação continuar exactamente igual? Isso não invalida o jejum. Significa apenas que a resposta de Deus para aquela situação segue outro tempo, que não está sob o seu controlo, nem nunca esteve.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, perdoa-nos quando tentamos usar o jejum como moeda de troca contigo. > Ensina-nos a jejuar para nos aproximarmos de ti, não para te pressionar. > Afina em nós aquilo que precisa de mudar por dentro. > Dá-nos paz mesmo quando a resposta ainda não chegou.
A pessoa que antes jejuava a contar horas até à resposta pode aprender a jejuar de outra forma: sem cronómetro, sem exigência, apenas com o coração mais atento a Deus do que ao próprio estômago. Para que serve o jejum, no fim de contas, não é para acelerar milagres, é para aproximar quem jejua d'Aquele a quem jejua. Leia também o nosso artigo sobre oração para aprofundar este caminho.
Outras mensagens relacionadas
Quando você tem vergonha de pedir a Deus outra vez
Já prometeu a Deus e não cumpriu? Descubra por que pedir a Deus de novo nunca dependeu do seu histórico, mas da graça que Ele oferece sem contador.
Quando a oração bate no tecto
Anos a pedir a mesma coisa sem resultado? Descubra o que pode estar no caminho e como orar com o pedido aberto.
Deus demora a responder: o que fazer
Anos a pedir a mesma coisa e o silêncio continua. Entenda a diferença entre atraso e preparação e como esperar sem parar de viver.