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Oração

Quando você tem vergonha de pedir a Deus outra vez

06 de agosto de 20266 min de leitura
Quando você tem vergonha de pedir a Deus outra vez
Versículo Âncora — Hebreus 4:16

Cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno.

Talvez você conheça bem esta sensação: pediu a Deus algo há meses, prometeu mudar se Ele respondesse, e depois a vida continuou como sempre. A promessa ficou esquecida numa gaveta qualquer da consciência. Agora há um novo pedido a bater à porta e você hesita. Sente que já gastou o seu crédito com Deus, que pedir a Deus de novo, depois de ter falhado tantas vezes, seria quase um abuso de confiança.

Essa vergonha tem um nome simples: você está a tratar a oração como se fosse um empréstimo com limite e juros que sobem a cada pedido não correspondido. E, quando pensa assim, prefere ficar calado a arriscar mais uma recusa, ou pior, mais uma prova de que não merece ser ouvido.

Imagine alguém que, ainda jovem, pediu emprestada a bicicleta do vizinho e a devolveu com um pneu furado. Prometeu consertar e nunca o fez. Meses depois precisou de novo de uma bicicleta emprestada, mas não foi bater àquela porta. Foi bater a outra, mais distante, só para não encarar o rosto de quem já lhe tinha feito um favor e recebido, em troca, um problema por resolver. A vergonha pesou mais do que a necessidade.

É mais ou menos assim que muita gente trata Deus. Pede uma vaga de emprego e promete ser mais fiel. Consegue a vaga, esquece a promessa. Pede saúde para um familiar e promete orar todos os dias. A saúde melhora, a rotina de oração não nasce. E quando surge o próximo pedido, talvez mais urgente do que os anteriores, a pessoa hesita, olha para o histórico de promessas quebradas e pensa que já não tem cara para pedir outra vez.

A tentativa mais comum, nestes casos, é tentar compensar Deus antes de voltar a falar com Ele. Fazer um jejum extra, ler a Bíblia com mais disciplina, tentar parecer mais digno antes de abrir a boca. É uma forma de pagar a dívida antes de pedir novo crédito. Só que, quanto mais se adia a conversa à espera de merecer, mais distante ela parece, e o pedido acaba por não sair nunca.

A virada acontece quando se entende que o convite de Deus nunca foi voltar apenas quando tiver pago o que deve. O convite é para chegar como está, exactamente porque não há forma de pagar antecipadamente por uma graça que, por definição, já é oferecida de graça.

O verdadeiro problema, então, não é ter falhado uma promessa. É ter transformado a oração num sistema de méritos que a Bíblia nunca ensinou. E é aqui que vale a pena olhar com calma para o que a carta aos Hebreus diz sobre chegar perto de Deus.

A graça não tem contador

Hebreus 4:16 convida a chegarmo-nos com confiança ao trono da graça, para alcançarmos misericórdia e acharmos graça em tempo de necessidade. Repare no verbo usado: cheguemo-nos. O texto não diz para provarmos primeiro que merecemos, nem para acumularmos pontos suficientes. A graça, por definição, é o que se recebe sem ter conseguido pagar por ela. Se fosse preciso um histórico limpo para pedir a Deus de novo, já não seria graça, seria um contrato comercial com cláusulas de incumprimento.

Isto não quer dizer que as promessas feitas a Deus não tenham valor, ou que cumprir a palavra dada não importe. Importa, e muito. Mas o ponto de partida da relação com Deus nunca foi o seu desempenho passado. Foi sempre a disposição d'Ele em ouvir. Pedir a Deus de novo, mesmo depois de falhar, não é abusar da paciência divina, é exactamente aquilo que Ele pede que se faça.

O convite a chegar com confiança

Há uma diferença entre chegar com arrogância e chegar com confiança. Arrogância diria que se merece. Confiança diz que se confia em quem se está a pedir. Essa confiança não nasce do seu currículo espiritual, nasce do carácter de Deus. Quando alguém hesita em voltar a pedir, muitas vezes está, sem perceber, a confiar mais na própria história de falhas do que na fidelidade de Deus.

Pense assim: um pai que ama o filho não fecha a porta porque o filho quebrou uma promessa em Janeiro. Fica à espera, com a porta aberta, mesmo em Agosto. Isso não desculpa o filho de nada, mas muda completamente a forma como ele pode voltar a bater. O mesmo se passa consigo diante de Deus.

Como recomeçar a conversa

Recomeçar não exige um discurso elaborado nem uma cerimónia de reconciliação. Pode começar com uma frase simples: Senhor, sei que prometi e não cumpri, mas preciso de falar consigo outra vez. Essa honestidade já é oração. Fingir que nada aconteceu também não ajuda: reconhecer a falha, sem se afundar nela, é o caminho mais curto de volta a uma conversa que nunca devia ter parado.

Quando isto não parece resultar

O erro mais comum aqui é confundir sentir-se indigno com estar impedido. São coisas diferentes. Sentir vergonha é humano, e até mostra que a promessa feita tinha peso para si. Mas transformar essa vergonha em silêncio prolongado é outra coisa: é deixar que um sentimento decida por si algo que já está resolvido pela graça de Deus.

E se, mesmo sabendo disto, a oração ainda sair truncada, cheia de hesitação? Não há problema nisso. Deus não está a avaliar a eloquência do pedido. Uma oração gaguejada, feita com vergonha mas feita mesmo assim, vale mais do que o silêncio educado de quem prefere não arriscar mais uma vez.

Como viver isto hoje

  • Escreva, ainda hoje, uma frase curta que resuma o que precisa de pedir a Deus outra vez, sem embrulhar em desculpas.
  • Diga essa frase em oração, em voz alta ou baixinho, antes que a vergonha tenha tempo de vencer a decisão.
  • Escolha um passo pequeno e realista para responder a uma promessa antiga que ficou por cumprir, sem tentar resolver tudo de uma vez.
  • Oração

    > Senhor, temos vergonha de voltar a pedir depois de tantas promessas quebradas. > Ensina-nos a chegar com confiança, não porque merecemos, mas porque a tua graça não tem contador. > Ajuda-nos a falar contigo hoje, mesmo com a voz a tremer. > Recebe o nosso pedido, outra vez, como se fosse a primeira.

    No fim do dia, aquela mesma pessoa que hesitava em bater à porta pode voltar a fazê-lo, não porque encontrou coragem sozinha, mas porque entendeu que a porta nunca esteve trancada. O pedido que parecia arriscado demais é, afinal, o convite mais antigo que existe. Feche esta leitura e diga a Deus, ainda agora, numa frase curta, o que precisa de pedir de novo.

    Acha que esta palavra pode abençoar alguém hoje?

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