Viva na PalavraDevocional Diário
Voltar ao início
Provação

O que dizer, e o que calar, a quem está a sofrer

11 de outubro de 2026•4 min de leitura
Versículo Âncora: Jó 2:13

“E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam que a dor era muito grande.”

Você chega ao óbito e encontra a família sentada no quintal. Cumprimenta, senta-se, e o silêncio pesa. Sente que tem de dizer alguma coisa. Então sai a frase de sempre: "Deus sabe o que faz." Ou: "Pelo menos ele já descansou." A pessoa acena com a cabeça, agradece, e você fica com a sensação de que não ajudou.

Não é só nos óbitos. Acontece com o amigo que perdeu o emprego, com a vizinha cujo filho foi preso, com o colega que recebeu uma notícia que não esperava. Queremos consolar e, por medo do silêncio, falamos depressa demais.

Os amigos de Jó começaram bem

Quando Jó perdeu os filhos, os bens e a saúde, três amigos combinaram ir ter com ele para o consolar. Ao vê-lo de longe, não o reconheceram. Choraram, rasgaram os mantos, lançaram pó sobre a cabeça. Depois sentaram-se com ele no chão durante sete dias e sete noites, sem dizer uma palavra, porque viam que a dor era muito grande (Jó 2:11-13).

Esses sete dias foram a melhor coisa que fizeram. O problema começou quando abriram a boca. Elifaz, o primeiro a falar, perguntou a Jó qual era o inocente que alguma vez tinha perecido (Jó 4:7-8). Por outras palavras: se isto lhe aconteceu, alguma coisa fez. Os outros seguiram a mesma linha durante capítulos. Jó chamou-lhes consoladores molestos (Jó 16:2), e no fim foi o próprio Deus que disse que eles não tinham falado dele o que era recto (Jó 42:7).

Repare no que isto ensina. Os amigos de Jó não eram maus. Vieram de longe, choraram, ficaram. Erraram quando quiseram explicar o sofrimento em vez de o acompanhar.

Frases que ferem mesmo quando são verdade

Muitas frases que dizemos a quem sofre não são falsas. São fora de tempo. "Deus está no controlo" é verdade, mas dita no primeiro dia pode soar a "não chore tanto". "Tudo tem um propósito" é verdade, mas pode soar a "isto até foi bom para você".

Há um critério simples para decidir se deve dizer uma frase: ela ajuda a pessoa a sentir-se acompanhada, ou ajuda você a sair do desconforto? Se a frase serve sobretudo para encerrar o assunto, guarde-a.

Evite também estas:

  • "Eu sei exactamente o que está a sentir." Não sabe. Mesmo que tenha passado por algo parecido, a dor do outro é só dele.
  • "Pelo menos..." Tudo o que vem depois desta expressão diminui a perda.
  • "Tem de ser forte." A pessoa não precisa de mais uma tarefa.
  • "O que é que aconteceu para chegar a isto?" Curiosidade disfarçada de cuidado. É a pergunta de Elifaz.
  • Provérbios compara quem canta canções ao coração aflito a quem despe a roupa num dia de frio (Provérbios 25:20). A alegria forçada, por bem-intencionada que seja, deixa o outro mais exposto.

    O que dizer em vez disso

    Na maior parte das vezes, menos é mais. Estas frases funcionam porque não tentam resolver nada:

    "Lamento muito. Estou aqui."

    "Não sei o que dizer, mas não quis deixar de vir."

    "Quer falar dele? Gostava de ouvir."

    A última é preciosa. Muitas pessoas em luto querem falar de quem perderam e sentem que os outros mudam de assunto para não as fazer chorar. Deixe-as chorar. Paulo manda chorar com os que choram (Romanos 12:15), não secar-lhes as lágrimas à pressa.

    Jesus sabia que ia ressuscitar Lázaro dali a pouco. Mesmo assim, diante de Maria e dos que choravam com ela, chorou (João 11:33-35). Se alguém tinha uma explicação pronta para aquela dor, era ele. Escolheu primeiro estar triste com quem estava triste.

    Depois do enterro, quando todos vão embora

    A casa enche nos primeiros dias e esvazia depressa. Três semanas depois, quem sofre está sozinho com a ausência, e é aí que a sua presença vale mais.

    Em vez de "se precisar de alguma coisa, ligue", que quase ninguém usa, ofereça algo concreto: "Na quinta-feira passo aí com o almoço." "Posso ir buscar as crianças à escola esta semana." Uma oferta concreta poupa à pessoa o esforço de pedir.

    E não desapareça. Uma mensagem simples, semanas depois, diz mais do que um discurso no dia do funeral: "Lembrei-me de si hoje."

    Como viver isto hoje

  • Pense numa pessoa que esteja a passar por uma perda e envie-lhe hoje uma mensagem curta, sem conselhos e sem versículos, só a dizer que se lembrou dela.
  • Antes de falar com alguém que sofre, faça a si mesmo a pergunta: esta frase é para ela ou para mim?
  • Ofereça uma ajuda com dia e hora marcados, em vez de um convite vago para ligar.
  • Oração

    > Senhor, ensina-nos a ficar quando não sabemos o que dizer. > Livra-nos da pressa de explicar a dor dos outros. > Dá-nos olhos para quem sofre depois de todos irem embora. > Que a nossa presença leve um pouco da tua consolação. Amém.

    Acha que esta palavra pode abençoar alguém hoje?

    Outras mensagens relacionadas