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Trabalho e Propósito

Quem não domina a raiva vive sem muros

11 de agosto de 20266 min de leitura
Quem não domina a raiva vive sem muros
Versículo Âncora — Provérbios 25:28

Como a cidade derribada, e sem muro, assim é o homem que não pode conter o seu espírito.

Foram só trinta segundos. Uma frase dita no tom errado, um gesto brusco, uma porta batida com mais força do que era preciso. Trinta segundos que bastaram para deixar uma marca numa relação construída ao longo de dez anos. Depois, vem o silêncio, o arrependimento, a pergunta que dói mais do que a própria explosão: "porque é que eu não consegui parar a tempo?"

Se isto lhe soa familiar, não está sozinho. A raiva é uma das emoções mais rápidas que existem — mais rápida do que a razão, quase sempre mais rápida do que a consciência. E o problema nunca é só o momento da explosão. É o que fica depois: a confiança abalada, o pedido de desculpa que nunca parece suficiente, a sensação de que, apesar de tudo o que já construiu com essa pessoa, um instante de descontrolo pode desfazer anos.

Imagine alguém que passa a vida a orgulhar-se de ser paciente, calmo, difícil de irritar. Até ao dia em que alguém próximo — um filho, um cônjuge, um colega — toca exactamente no ponto certo, sem saber, e a explosão sai antes de qualquer pensamento consciente. Depois do estrondo, essa pessoa fica confusa: "eu não sou assim". Mas talvez seja precisamente assim, sob pressão suficiente, porque ninguém conhece de facto os seus limites até serem testados.

Essa mesma pessoa tenta, durante algum tempo, resolver o problema apenas prometendo "não vou voltar a fazer isto". A promessa dura até à próxima provocação, porque promessas feitas depois da tempestade raramente resistem à próxima tempestade. O que muda, de facto, não é a promessa — é aprender a reconhecer o momento exacto entre a provocação e a resposta, e a colocar ali, nesse intervalo minúsculo, uma pausa.

O livro de Provérbios descreve com uma imagem forte quem não consegue conter o próprio espírito: é como uma cidade derrubada, sem muros. Uma cidade sem muros, na Antiguidade, estava exposta a tudo — a ladrões, a inimigos, a qualquer ameaça que decidisse entrar. É essa a imagem de quem vive sem domínio sobre a raiva: exposto, vulnerável, sem qualquer defesa entre o impulso e a acção. Controlar a raiva, portanto, não é suprimi-la nem fingir que ela não existe. É reconstruir o muro que protege a si e aos outros do que sai de si nos momentos mais frágeis.

O que a raiva está a proteger

A raiva raramente aparece sozinha. Quase sempre está a proteger outra coisa — uma dor antiga, um medo de não ser respeitado, um cansaço acumulado que já não cabe mais dentro de si. Antes de tentar simplesmente "controlar a raiva" como se fosse um interruptor, vale a pena perguntar: o que é que esta raiva está a defender? Muitas vezes, por trás da explosão está uma ferida que nunca foi tratada, ou uma necessidade nunca dita em voz alta.

Reconhecer isto não serve de desculpa para o comportamento. Serve para ir à raiz, em vez de ficar só a tentar apagar o fogo sempre que ele aparece.

A pausa de 90 segundos

Há um intervalo, por menor que seja, entre o que provoca a raiva e a resposta que se dá a ela. É nesse intervalo que tudo se decide. Costuma dizer-se que cerca de noventa segundos é o tempo que uma onda emocional intensa leva a perder a força inicial, se não for alimentada por mais pensamentos de raiva.

Na prática, isto significa: quando sentir a raiva a subir, dê-se, deliberadamente, um espaço antes de responder. Respire fundo, conte devagar, saia da sala se for preciso. Não é fraqueza adiar a resposta — é sabedoria. A pessoa que responde depois de noventa segundos quase sempre diz algo muito diferente da que responde no primeiro segundo de fúria.

Reparar depois do estouro

Vai haver dias em que a pausa não chega a tempo. Nesses dias, o que importa não é fingir que não aconteceu, mas reparar bem. Reparar significa reconhecer com clareza o que fez, sem desculpas do tipo "mas tu também", e pedir desculpa de forma directa, olhando para a pessoa que ficou magoada.

Uma reparação sincera não apaga a explosão, mas mostra que o descontrolo não é a última palavra na relação. E, com o tempo, é essa capacidade de reparar bem que reconstrói a confiança que uma explosão abalou.

Quando isto não parece resultar

Se já tentou controlar a raiva e sente que continua a explodir, o erro mais comum é tentar mudar sozinho, sem pedir ajuda a mais ninguém. Quando a raiva é intensa, frequente ou já causou dano sério a si ou a outros, procurar acompanhamento pastoral e, se necessário, apoio profissional especializado não é fracasso — é responsabilidade. Nem tudo se resolve só com boa vontade e versículos memorizados.

Como viver isto hoje

  • Identifique, com honestidade, o que costuma provocar as suas explosões de raiva.
  • Na próxima vez que sentir a raiva a subir, force uma pausa antes de responder — conte, respire, afaste-se.
  • Procure, ainda hoje, a pessoa que levou a sua última explosão e peça desculpa com clareza.
  • Oração

    > Senhor, reconhecemos que a nossa raiva já feriu quem amamos. > Ajuda-nos a reconstruir o muro que protege as nossas palavras e os nossos gestos. > Dá-nos a pausa que nos falta antes de responder, e a humildade para reparar quando falhamos. > Que a nossa vida deixe de ser uma cidade sem muros e passe a reflectir o Teu domínio próprio. > Amém.

    Aqueles trinta segundos que já custaram tanto não precisam de se repetir. A relação de dez anos que quase se partiu ainda pode ser reconstruída, um gesto de reparação de cada vez. Comece hoje: procure quem levou a sua última explosão e diga, com sinceridade, que está arrependido — é o primeiro tijolo do muro que estava a faltar.

    Acha que esta palavra pode abençoar alguém hoje?

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