A inveja que ninguém confessa
“O coração tranquilo é a vida da carne, mas a inveja é a podridão dos ossos.”
O telemóvel vibra, é uma notificação qualquer, e antes de perceber já está a ver a fotografia: um amigo próximo, uma conquista que você também desejava, uma legenda cheia de gratidão. E, em vez de alegria, sente algo apertado no peito que não gosta de admitir que existe. Um misto de por que não eu e de vergonha por sentir exactamente isso em relação a alguém de quem gosta.
Esse incómodo tem nome, mesmo que ninguém goste de o pronunciar em voz alta: inveja. E saber como lidar com a inveja começa, precisamente, por deixar de fingir que ela não está ali, porque enquanto for escondida, continua a crescer por dentro sem que se perceba a dimensão do estrago que já vai fazendo.
Imagine alguém que trabalha há anos com afinco no mesmo objectivo, seja um negócio, um curso, uma família que deseja construir. Um dia, uma pessoa próxima, com quem sempre teve uma boa relação, alcança justamente aquilo que essa pessoa também busca, e alcança de forma aparentemente mais fácil e mais rápida. A reacção inicial é parabenizar, porque é o que se espera socialmente, mas por dentro fica um ressentimento que não desaparece com a mensagem de felicitações enviada por educação.
Nas semanas seguintes, a pessoa começa a evitar o contacto com quem conquistou aquilo, comparando-se constantemente, sentindo-se cada vez menor perto dos sucessos alheios. Tenta resolver isto esforçando-se ainda mais no seu próprio objectivo, numa espécie de corrida que ninguém pediu, mas o esforço nasce da comparação, não do propósito, e por isso cansa sem satisfazer.
A tentativa falhada foi tentar calar a inveja com mais trabalho e mais comparação, sem nunca encarar de frente o que realmente estava a sentir. A virada de percepção só acontece quando essa pessoa entende que a inveja não diz nada sobre o valor do outro, diz muito sobre a insegurança e a comparação que já estavam instaladas antes mesmo daquela conquista aparecer no telemóvel.
O verdadeiro problema, portanto, nunca foi a conquista do outro. Foi a comparação silenciosa que já corria por dentro, muito antes de haver algo concreto para comparar.
A inveja como sintoma de comparação
Provérbios 14:30 diz que o coração tranquilo é vida para o corpo, mas a inveja é como podridão nos ossos. É uma imagem forte, e precisa, porque a inveja corrói por dentro, devagar, sem que quem a sente perceba de imediato o tamanho do dano. Ela nasce quase sempre da comparação: medir o próprio valor pelo que o outro tem, e não pelo que já foi recebido e construído com esforço próprio.
Reconhecer a inveja como sintoma de comparação ajuda a não tratá-la apenas como um defeito de carácter isolado. É um sinal de que algo na forma de ver a própria vida precisa de atenção, geralmente a insegurança sobre o próprio valor ou percurso.
O que ela destrói primeiro em quem sente
A inveja raramente atinge quem é invejado. Atinge, primeiro e principalmente, quem a sente. Rouba a paz de celebrar conquistas próprias, porque a atenção fica presa na conquista alheia. Corrói relações que, de outra forma, seriam fonte de apoio e alegria. E, com o tempo, distancia a pessoa da própria fé, porque é difícil confiar na provisão de Deus enquanto se está ocupado a medir a provisão do vizinho.
Prática de alegrar-se com o outro
A forma mais eficaz de lidar com a inveja não é reprimi-la nem fingir que ela não existe, é praticar deliberadamente o oposto dela: alegrar-se genuinamente pela conquista do outro. Isto não acontece automaticamente com um sentimento, acontece com uma acção concreta e repetida. Enviar uma mensagem de felicitação sincera, mesmo quando ainda há um resto de desconforto por dentro, é um exercício que, com o tempo, treina o coração a reagir de forma diferente.
Não é hipocrisia agir assim antes de sentir cem por cento à vontade. É disciplina, da mesma forma que se treina qualquer outro hábito que ainda não é natural.
Quando isto não parece resultar
O erro mais comum é esperar que a inveja desapareça de uma só vez, com um único acto de boa vontade. Ela costuma voltar, especialmente diante da mesma pessoa ou do mesmo tipo de conquista, e isso não significa que o esforço anterior tenha falhado. E se, mesmo depois de enviar a mensagem de parabéns, o incómodo continuar a aparecer sempre que aquele assunto surge? Isso é normal no início. O objectivo não é eliminar o sentimento instantaneamente, é impedir que ele determine as suas acções e as suas relações.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, perdoa-nos pela inveja que muitas vezes escondemos até de nós mesmos. > Ensina-nos a alegrar-nos verdadeiramente com as conquistas dos outros. > Cura o que a comparação já corroeu em nós. > Ajuda-nos a confiar que também temos um lugar e um tempo nas tuas mãos.
A pessoa que antes evitava o contacto com quem tinha conquistado aquilo que também desejava pode aprender a sentar-se ao lado dessa mesma pessoa e a celebrar com ela, sem representar um sentimento que não sente. Saber como lidar com a inveja não elimina o primeiro incómodo diante de uma boa notícia alheia, mas impede que ele decida como você trata quem ama. Envie hoje mesmo essa mensagem de parabéns que ainda não escreveu.
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