Quando você crê e o resto da casa não
“Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.”
Você vai ao culto sozinho, semana após semana, enquanto o resto da casa fica a dormir ou a fazer outra coisa qualquer. À mesa, evita tocar em certos assuntos porque sabe que vão gerar tensão, ou pior, um silêncio pesado que dura o resto da refeição. E, de vez em quando, sente uma vontade quase incontrolável de pregar à força, de insistir, de citar versículos até que alguém, finalmente, entenda o que você já entendeu.
Quando você crê e o resto da família não acredita em Deus da mesma forma, ou não acredita de todo, a solidão espiritual dentro de casa é um dos pesos mais silenciosos que existem. Ninguém fala muito sobre isto, mas é uma realidade comum a muita gente que lê este tipo de artigo precisamente por viver essa distância todos os dias.
Imagine alguém que, pouco depois de aprofundar a sua fé, decidiu que a família também precisava de ver a luz o mais depressa possível. Passou a comentar versículos em quase todas as conversas, a insistir para que todos fossem ao culto consigo, a corrigir pequenos comportamentos com referências bíblicas soltas. A intenção era boa, mas o efeito foi o oposto do desejado: a família começou a evitar tocar no assunto perto dessa pessoa, alguns até passaram a associar a fé dela a um peso, e não a um convite.
Frustrada com a distância que se instalou, essa pessoa tentou ainda mais insistência, achando que o problema era não ter falado o suficiente. O resultado foi o mesmo, só que pior: mais resistência, mais silêncio, mais evasivas quando o assunto se aproximava de religião.
A virada de percepção aconteceu quando essa pessoa entendeu que a insistência verbal não estava a convencer ninguém, estava apenas a afastar. O problema nunca tinha sido falar pouco sobre fé, tinha sido tentar convencer com palavras algo que só se comunica de outra forma, mais lenta e mais silenciosa.
O verdadeiro desafio, portanto, não é encontrar os argumentos certos para convencer a família. É aprender a viver a fé de um jeito que fale por si, sem exigir que ninguém concorde de imediato.
Por que a insistência afasta
Ninguém gosta de se sentir um projecto de conversão dentro da própria casa. Quando a fé é usada como arma de argumento em cada discussão, mesmo com boas intenções, a reacção natural de quem ouve é fechar-se, para se proteger de sentir-se constantemente avaliado ou corrigido. A insistência verbal, por mais bem-intencionada que seja, comunica pressa, e a fé genuína raramente nasce sob pressão.
Isto não significa nunca falar sobre fé em casa. Significa não fazer disso o único assunto, nem tratar cada silêncio ou resistência como uma batalha a vencer com mais argumentos.
O testemunho que fala sem palavras
Mateus 5:16 diz que a luz deve resplandecer diante dos homens, para que vejam as boas obras e glorifiquem o Pai que está nos céus. Repare que o texto fala de obras vistas, não de discursos ouvidos. A forma mais poderosa de testemunho dentro de casa costuma ser a paciência mantida numa discussão que antes gerava explosão, a ajuda oferecida sem cobrança de reconhecimento, o perdão dado sem se fazer de vítima depois. Esse tipo de mudança é difícil de discutir, mas impossível de ignorar ao longo do tempo.
A família pode não concordar com as suas crenças, mas dificilmente ignora uma transformação real e sustentada no seu carácter.
Orar sem cobrar
Uma prática essencial, e muitas vezes esquecida, é orar pela família sem transformar essa oração numa lista de cobranças a Deus sobre prazos de conversão. Orar com confiança, entregando o tempo e a forma a Deus, é diferente de orar com ansiedade, como quem está a pressionar Deus a agir depressa para aliviar o seu próprio desconforto com a situação.
Essa entrega também muda a forma como você trata a família no dia a dia: menos ansiedade para resolver a questão espiritual deles, mais paz para simplesmente amá-los enquanto o processo, que não está nas suas mãos, segue o seu curso.
Quando isto não parece resultar
O erro mais comum é medir o sucesso deste caminho pela conversão da família num prazo determinado por você mesmo. Isso gera frustração constante, porque essa decisão nunca esteve sob o seu controlo. E se, mesmo vivendo com paciência e testemunho silencioso durante anos, a família continuar sem acreditar? Isso não significa que o seu esforço foi em vão. O seu papel nunca foi garantir o resultado, foi ser fiel ao processo. O resultado pertence a Deus e ao tempo de cada pessoa.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, é difícil crer sozinho dentro da própria casa. > Ensina-nos a testemunhar com as nossas acções, mais do que com as nossas palavras. > Ajuda-nos a orar pela família sem ansiedade e sem cobrança. > Confiamos a ti o tempo e a forma como cada um vai te conhecer.
A pessoa que antes insistia em cada conversa, tentando convencer a família a qualquer custo, pode aprender a deixar a paciência falar por ela, semana após semana, sem discursos. Quando você crê e a família ainda não acredita em Deus da mesma forma, a distância pode não desaparecer de imediato, mas deixa de pesar sozinha sobre os seus ombros. Leia também o nosso artigo sobre paciência em casa para continuar este caminho.
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