Como voltar depois de anos afastado
“E, levantando-se, foi para seu pai. E, quando ainda estava longe, seu pai o viu, e se moveu de íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou.”
Já nem se lembra bem de quando foi a última vez que orou a sério, sem ser um pedido apressado num momento de aperto. Foram-se acumulando anos, cada um deles afastando um pouco mais, até que voltar parece agora uma distância impossível de atravessar. E quanto mais tempo passa, maior parece o caminho de volta, como se houvesse um limite de tempo depois do qual já não vale a pena tentar.
Se está a pensar em voltar para Deus depois de anos de afastamento, mas sente que já foi longe demais para ser bem recebido, vale a pena conhecer, ou reler com atenção, uma das histórias mais conhecidas que Jesus contou, porque ela responde exactamente a esse medo.
Jesus conta a história de um pai com dois filhos. O mais novo pede a sua parte da herança ainda em vida do pai, um pedido praticamente equivalente a desejar que o pai já estivesse morto, e parte para uma terra distante. Ali gasta tudo o que tinha numa vida descontrolada, até que uma grande fome se abate sobre a região e ele se vê reduzido a cuidar de porcos, tarefa considerada extremamente degradante na cultura da época, sem sequer ter o suficiente para comer.
Nesse ponto mais baixo, o texto diz que ele caiu em si, e decidiu voltar para casa do pai, não como filho, porque já não se considerava digno disso, mas como um simples empregado contratado. Preparou até um pequeno discurso de arrependimento para dizer ao pai. O que ele não esperava foi a reacção que encontrou: o pai, que aparentemente já olhava frequentemente para o caminho à espera, vê o filho ainda de longe, corre ao seu encontro, abraça-o e beija-o, antes mesmo de o filho terminar o discurso preparado.
A tentativa do filho de negociar um lugar de empregado, uma forma de minimizar a ousadia de voltar, nem chega a ser ouvida até ao fim. A virada de percepção da história é justamente essa: o pai não estava à espera de avaliar o quanto o filho merecia voltar. Estava apenas à espera de o ver voltar.
O verdadeiro obstáculo para quem hoje pensa em voltar para Deus não é, portanto, o tamanho da distância percorrida. É a suposição, quase sempre errada, de que Deus vai reagir com a mesma lógica de avaliação de mérito que a própria pessoa usa para se julgar.
O pai que corre ao encontro
Repare no detalhe da história: é o pai quem corre, não o filho. O filho ainda vinha a caminho, provavelmente devagar, talvez hesitante, e o pai antecipa-se ao encontro. Esta imagem, que Jesus usa para falar de Deus, contraria directamente a ideia de que é preciso percorrer sozinho toda a distância de volta antes de merecer ser recebido. Deus não espera no fim do caminho a avaliar o esforço, Ele vem ao encontro assim que há sequer o início de um movimento de regresso.
Isto não diminui os anos de afastamento, nem finge que eles não aconteceram. Apenas mostra que esses anos não são o factor que determina como Deus recebe quem volta.
O que ninguém vai perguntar quando voltar
Um dos maiores medos de quem pensa em voltar depois de muito tempo é imaginar um interrogatório: onde esteve, porque demorou tanto, o que fez durante esse tempo todo. Na história contada por Jesus, o pai não faz nenhuma dessas perguntas. Não exige explicações antes do abraço. A festa que se segue ao reencontro acontece antes de qualquer prestação de contas.
Isto não significa que conversas difíceis nunca aconteçam depois, mas mostra que elas não são condição para o reencontro. O reencontro vem primeiro.
Primeiro passo de regresso
O texto diz que tudo começou quando o filho caiu em si e decidiu levantar-se e ir. Não precisou de um plano perfeito, nem de ter já resolvido tudo o que tinha estragado. Precisou apenas de dar o primeiro passo na direcção certa. Para quem hoje pensa em voltar para Deus depois de anos de distância, o primeiro passo também não precisa de ser grandioso: pode ser uma oração curta e honesta, dita ainda hoje, antes de qualquer outra coisa.
Quando isto não parece resultar
O erro mais comum é esperar sentir-se pronto para voltar antes de dar o primeiro passo, como se fosse preciso arrumar a vida primeiro para depois procurar Deus. Foi exactamente o contrário que aconteceu na história: o filho voltou ainda em farrapos, sem nada resolvido, e foi recebido assim mesmo. E se, mesmo depois de voltar, ainda restarem consequências práticas dos anos de afastamento, relações para reparar, hábitos para desfazer? Isso é normal, e não anula o reencontro com Deus. Essas reconstruções levam tempo e, em muitos casos, beneficiam de acompanhamento pastoral próximo, que ajuda a caminhar sem pressa e sem culpa excessiva.
Como viver isto hoje
Oração
> Pai, sentimos que a distância que criámos é grande demais para atravessar sozinhos. > Obrigado por correres ao nosso encontro antes mesmo de terminarmos de explicar. > Ajuda-nos a dar hoje o primeiro passo de regresso, sem esperar estar prontos. > Recebe-nos como recebeste o filho que voltou, sem perguntas antes do abraço.
Quem hoje sente que já se afastou tempo demais pode descobrir, ao dar o primeiro passo, que a distância nunca foi tão intransponível quanto parecia à distância. Voltar para Deus depois de anos não exige um discurso perfeito nem uma vida já arrumada, exige apenas o movimento de virar-se e caminhar. Comente voltei e deixe esse primeiro passo registado hoje.
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