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Oração

Como orar quando não sente nada

03 de agosto de 20266 min de leitura
Como orar quando não sente nada
Versículo Âncora — Salmo 42:11

Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei; ele é a salvação da minha face e o meu Deus.

Você ajoelha-se ao lado da cama, fecha os olhos e começa a falar com Deus. Passam os minutos e não sente nada. Não há lágrimas, não há aquele calor no peito que já sentiu outras vezes, não há paz nenhuma a descer. O que ouve, com mais clareza do que a própria oração, é o barulho do frigorífico na cozinha ao lado e o relógio a bater sobre o armário. Você continua porque sabe que deve continuar, mas o "amém" final sai mais como alívio de ter terminado do que como fé. Se isto lhe soa familiar, a pergunta que provavelmente já lhe passou pela cabeça, mesmo sem a dizer em voz alta a ninguém, é simples e pesada ao mesmo tempo: orar sem sentir nada ainda é orar de verdade?

Há um grupo de cânticos, no meio do livro de Salmos, escrito por homens que serviam no templo e que, por alguma razão que o texto não explica com detalhe, se encontravam longe dele. Um desses cânticos começa com uma imagem que já ouviu de certeza: a alma sedenta como um cervo que procura ribeiros de água. Mas o que vem depois dessa imagem bonita é menos conhecido. O autor lembra-se de como era antes — ia à casa de Deus "com voz de alegria e louvor, multidão que festejava" — e agora só lhe resta a memória. As lágrimas tornaram-se o seu pão de dia e de noite. Ele pergunta a Deus, por várias vezes ao longo do salmo, por que se sente esquecido. E no meio dessa secura, sem que o sentimento tenha mudado nem uma vez, ele diz uma frase que vira a direcção de tudo: "por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei." Ele não sentiu nada de diferente antes de dizer isto. Falou consigo mesmo, deu uma ordem à própria alma, e decidiu continuar a confiar antes de ter qualquer prova de que valia a pena.

Essa é a virada que talvez lhe tenha escapado até agora: o problema nunca foi a ausência de sentimento. O problema é ter aprendido, sem perceber, que a oração só é válida quando vem acompanhada de emoção. Ninguém lhe disse isso com essas palavras, mas foi isso que absorveu de tantos testemunhos animados, tantos cultos vibrantes, tanta gente a contar como sentiu a presença de Deus de forma clara. E quando a sua oração não produz nada parecido, a conclusão mais fácil é achar que fez algo mal, ou pior, que Deus se calou especialmente consigo.

Sentimento não é medidor de fé

Se a fé fosse medida pelo que sente, ninguém conseguiria mantê-la por muito tempo, porque o sentimento muda com o sono, com a fome, com um dia difícil no emprego, com uma preocupação que não sai da cabeça. Orar sem sentir nada não é sinal de que a fé desapareceu; é sinal de que o corpo e a mente estão a atravessar um dia seco, como há dias de chuva e dias de sol. A fé bíblica nunca foi apresentada como uma sensação a perseguir, mas como uma confiança a exercer, mesmo quando por dentro está tudo calado.

Pense em alguém que decidiu, depois de ouvir um pregador entusiasmado, que ia orar todos os dias às cinco da manhã porque "essa é a hora dos gigantes da fé". Na primeira semana sentiu-se determinado. Na segunda, já não sentia nada de especial, só sono e frio. Na terceira, parou, convencido de que se não sentia nada é porque estava a fazer errado ou porque Deus já não estava interessado nas suas orações. O que lhe faltou não foi disciplina; faltou-lhe saber que a oração não existe para produzir uma emoção, existe para manter uma relação viva, e as relações reais sobrevivem a fases sem brilho.

O que a oração seca produz por baixo

Há um trabalho que a oração faz mesmo quando não sente nada, um pouco como uma raiz que cresce debaixo da terra sem que se veja folha nenhuma à superfície. Continuar a falar com Deus em dias secos ensina algo que os dias emotivos não ensinam: que a sua fé não depende do seu estado de espírito. Isso é uma fé mais resistente, porque já não precisa de condições especiais para se manter de pé.

Também há humildade que nasce daí. Quando ora e sente tudo, é fácil pensar que merece essa proximidade. Quando ora e não sente nada, e mesmo assim continua, está a dizer, sem palavras bonitas, que Deus vale a pena mesmo sem recompensa imediata. É o mesmo tipo de confiança que sustenta um casamento maduro: já não depende de sensações passageiras, depende de uma decisão diária de continuar presente.

Três formas de orar em dia seco

Quando o sentimento falta, mudar a forma de orar ajuda mais do que forçar uma emoção que não vem. Primeiro, ore com a Bíblia aberta, transformando um salmo ou uma oração da Escritura nas suas próprias palavras. Isto dá corpo à oração quando as suas próprias frases parecem vazias. Segundo, ore em voz alta, mesmo sozinho em casa. Ouvir a própria voz a falar com Deus muda a experiência de estar apenas a pensar; dá à oração um peso mais real. Terceiro, ore com uma lista simples à sua frente — pessoas, situações, agradecimentos — para que a mente tenha onde se apoiar quando o coração está distraído ou pesado. Nenhuma destas formas garante sentir algo. Garantem apenas que a conversa continua, e é a conversa que sustenta a relação, não a emoção que a acompanha.

Quando isto não parece resultar

Talvez pense: já tentei tudo isto e continuo sem sentir nada, semana após semana. Aqui está o erro mais comum: medir se a oração "resultou" pelo que sentiu no momento, e não pelo que ela foi construindo com o tempo. Um período seco de dias pode ser normal; um período seco de meses, sem qualquer outro sinal de vida espiritual, pode merecer uma conversa franca com alguém da sua igreja que o conheça e possa caminhar consigo nesse tempo. Orar sem sentir nada durante uma fase não significa que está a fazer mal; significa apenas que, por agora, a sua fé está a ser exercitada de uma forma menos confortável, e mais forte.

Como viver isto hoje

  • Escolha um horário fixo, curto, para orar — dois ou três minutos bastam para começar — e cumpra-o mesmo sem vontade nenhuma.
  • Leve um salmo consigo para dentro da oração, lendo-o devagar e transformando as frases em conversa com Deus.
  • Anote, num caderno pequeno, apenas uma linha por dia sobre a oração daquele momento, sem se preocupar em senti-la; o registo vale mais do que a emoção.
  • > Senhor, hoje não sentimos nada quando falamos consigo, mas escolhemos continuar a falar mesmo assim. > Ensina-nos a confiar que a nossa fé não depende do que sentimos, mas da sua fidelidade constante. > Sustente-nos nos dias secos como sustentou tantos que oraram antes de nós sem sentir resposta imediata. > Obrigado por nos ouvir mesmo quando o nosso coração parece calado.

    Volte àquele momento junto à cama, com o frigorífico a fazer barulho lá fora. Nada mudou na sala, mas alguma coisa mudou em quem ali está: já não precisa de sentir para acreditar que a oração vale a pena. O silêncio deixou de ser prova de abandono e passou a ser apenas mais um dia dentro de uma relação que não depende de emoções para continuar viva. Se já passou por isto, conte aqui nos comentários qual foi a última vez que a oração lhe pareceu vazia — pode ser exactamente o que outra pessoa precisa de ler hoje.

    Acha que esta palavra pode abençoar alguém hoje?

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