Marta e Maria: a boa parte que não lhe será tirada
“E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e preocupada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.”
As visitas chegam a meio da manhã de domingo. O arroz está ao lume, o frango ainda por temperar, falta ir buscar a gasosa e ninguém lavou os copos bons. Na sala, a conversa está animada. Você ouve as gargalhadas a partir da cozinha e, entre uma panela e outra, pensa: e eu, quando é que me sento?
Muita gente lê a história de Marta e Maria e sai dela com uma conclusão rápida: Maria é a boa, Marta é a má, e quem trabalha muito devia aprender a parar. O texto diz outra coisa, e diz mais.
Uma casa, uma visita, duas maneiras de receber
Lucas conta que Jesus já tinha decidido firmemente ir a Jerusalém (Lucas 9:51) e que, pelo caminho, entrou numa aldeia. Uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa. A casa é dela. A iniciativa de acolher é dela. Em Angola, ninguém precisa de explicar a Marta o peso de receber bem uma visita. Ela não está a fazer nada de errado.
A irmã, Maria, sentou-se aos pés de Jesus a ouvir a sua palavra. A expressão não é um pormenor. Era a posição de quem aprende com um mestre: Paulo diz que foi instruído aos pés de Gamaliel (Atos 22:3). Maria não está a descansar enquanto a irmã trabalha. Está a aprender.
Vale a pena reparar onde Lucas colocou esta cena. Imediatamente antes está a parábola do bom samaritano, que termina com uma ordem de Jesus: vai e faz da mesma maneira (Lucas 10:37). Logo a seguir vem uma casa onde quem recebe o elogio é quem está sentada a ouvir. Lucas não está a pôr o fazer contra o ouvir. Está a mostrar que o discípulo precisa dos dois, e que o fazer sem o ouvir acaba por azedar.
Onde Marta se perdeu
O problema de Marta não é estar na cozinha. Lucas diz que ela andava distraída em muitos serviços. As tarefas puxavam-na para todos os lados ao mesmo tempo, e a visita, que era a razão de tudo, ficou na sala sem ela.
Depois vem a frase que mostra o que estava a crescer por dentro. Marta não vai ter com a irmã. Vai ter com Jesus e pergunta-lhe se não se importa de que ela sirva sozinha. Em seguida dá-lhe uma ordem: que mande a irmã ajudá-la. Numa só frase, queixa-se do convidado, expõe a irmã diante dele e decide o que ele deve fazer.
É isto que o serviço cansado faz quando ninguém o trava. Começa por amor, passa a obrigação e acaba em acusação, contra os outros e contra Deus. O sinal de alarme não é o cansaço. É o momento em que o seu trabalho se torna um argumento contra alguém.
O que Jesus responde, e o que não responde
Jesus diz o nome dela duas vezes: Marta, Marta. Não é o tom de quem despacha alguém. É o tom de quem fala com alguém de quem gosta. João, aliás, escreve com todas as letras que Jesus amava Marta, a irmã e Lázaro (João 11:5).
Repare também no que ele não faz. Não manda Maria levantar-se. Não manda Marta largar a cozinha. Não faz um discurso contra o trabalho da casa. Diz que ela está ansiosa e preocupada com muitas coisas, e que só uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e essa não lhe será tirada.
A boa parte não é um estilo de vida mais espiritual, reservado a pessoas calmas. Naquele dia, era uma coisa simples: Jesus estava ali, a falar, e havia lugar aos pés dele. O almoço podia ser mais simples. Aquela hora não ia voltar.
Na sua vida, a pergunta é a mesma. Entre as muitas coisas que hoje parecem urgentes, qual é a única que não pode ficar para depois? Quase nunca é a que faz mais barulho.
Marta não ficou presa àquele dia
Seria injusto deixar Marta na cozinha para sempre. João, que situa a casa das irmãs em Betânia (João 11:1), conta mais duas cenas. Quando Lázaro morre, é Marta quem sai ao encontro de Jesus, e é dela uma das confissões mais claras de todo o Evangelho: crê que ele é o Cristo, o Filho de Deus (João 11:27). Mais tarde, numa ceia na mesma aldeia, o texto diz apenas que Marta servia (João 12:2). Continua a servir. Desta vez, não há registo de queixa.
A lição não é deixar de servir. É servir a partir dos pés de Jesus, e não em vez deles.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, tu conheces as nossas cozinhas cheias e as nossas listas sem fim. > Perdoa-nos quando o serviço se torna queixa contra os outros e contra ti. > Ensina-nos a escolher a boa parte, que é ouvir a tua palavra. > E que o nosso trabalho nasça desse lugar aos teus pés. Amém.
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