Provérbios 1: as duas vozes que disputam o seu ouvido
“O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e a instrução.”
Provérbios abre com uma promessa ambiciosa. Nos primeiros versículos, o livro diz para que serve: dar sabedoria e instrução, ensinar justiça, juízo e equidade, dar prudência aos simples e discernimento aos jovens. Parece o início de um manual de bons conselhos.
Mas o capítulo 1 faz uma coisa inesperada. Em vez de começar pelos conselhos, põe o leitor diante de duas vozes que o chamam ao mesmo tempo. Uma é a de um grupo que oferece dinheiro fácil e um lugar entre eles. A outra é a da sabedoria, que grita nas ruas. O capítulo inteiro gira à volta de uma pergunta: a quem é que você vai dar ouvidos?
Quem fala e para quem
O livro apresenta-se como provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel (Provérbios 1:1). Nem tudo nele saiu da mesma mão: há palavras atribuídas a Agur e ao rei Lemuel (Provérbios 30:1 e Provérbios 31:1), e uma colecção de provérbios de Salomão foi copiada mais tarde pelos homens de Ezequias (Provérbios 25:1).
Os primeiros nove capítulos têm uma forma própria. São discursos de um pai ao filho, e a expressão "filho meu" repete-se ao longo deles. Só neste capítulo aparece três vezes, nos versículos 8, 10 e 15. Isto muda a forma de ler. Não é um catálogo de frases soltas para pendurar na parede. É a conversa de alguém mais velho que sabe o que espera um jovem lá fora e quer prepará-lo antes que aconteça. O versículo 8 junta o pai e a mãe: a instrução de um e o ensinamento da outra são como um enfeite na cabeça e um colar ao pescoço. A sabedoria começa em casa, passada por quem nos ama.
Antes de qualquer conselho, vem a frase que serve de chave a todo o livro: o temor do Senhor é o princípio do conhecimento. Temor, aqui, não é pavor. É a atitude de quem leva Deus a sério, sabe que ele vê e quer viver de acordo com isso. Princípio quer dizer ponto de partida. Quem salta este passo pode acumular informação, mas não chega à sabedoria de que o livro fala.
O mesmo versículo dá o contraste: os loucos desprezam a sabedoria e a instrução. Em Provérbios, louco não é quem tem pouca inteligência. É quem não aceita ser ensinado.
O convite que parece amizade
A primeira voz que o capítulo descreve não é a de um estranho mal-encarado. É a de um grupo que atrai com agrados (v. 10). A proposta tem tudo o que um jovem deseja: acção, dinheiro rápido e um lugar no grupo. "Teremos todos uma só bolsa", dizem eles (v. 14). O pai não suaviza o plano: é violência contra inocentes para encher a casa de despojos.
Hoje o convite raramente fala em sangue. Pode ser um colega que propõe aumentar o valor de uma factura e dividir a diferença. Pode ser um grupo que pressiona para entrar num esquema onde todos ganham e ninguém pergunta quem perde. A estrutura é a mesma de Provérbios 1: um ganho fácil, um grupo que acolhe e uma vítima que não está presente.
O pai dá um critério para reconhecer este caminho: repare para onde correm os pés (v. 16). Antes de perguntar quanto se ganha, pergunte quem paga. Se a resposta é alguém que não está na sala, você está diante do convite de Provérbios 1.
Os versículos 18 e 19 dizem algo que surpreende. Estes homens armam ciladas contra o próprio sangue. Pensam que estão a caçar, mas são eles a presa. A cobiça acaba por destruir quem a carrega.
A resposta que o pai ensina não é um debate. É curta: não aceite, não vá com eles, desvie o pé do caminho deles (v. 10 e 15). Hoje pode soar assim: "Não, obrigado. Isso não é para mim." Não precisa de explicar mais, nem de convencer o grupo. Quanto mais tempo fica a discutir a proposta, mais difícil se torna sair dela.
A sabedoria não fala em segredo
A segunda voz surge no versículo 20. A sabedoria aparece como uma mulher que grita nas ruas, nas esquinas movimentadas, às portas da cidade. O pormenor importa. A sabedoria não está escondida num lugar a que só alguns chegam. Fala no meio da vida comum, onde se negoceia, se decide e se julga. Hoje diríamos: na paragem do candongueiro, no mercado, no escritório.
O discurso dela é duro. Pergunta até quando os simples vão amar a simplicidade e os escarnecedores vão gostar de escarnecer (v. 22). Oferece-se para ensinar (v. 23). Depois descreve o que acontece a quem recusa: quando a aflição chega como uma tormenta, clamam e não encontram resposta (v. 27 e 28).
Estes versículos são fáceis de ler mal. O texto não descreve alguém que se arrepende de coração e é rejeitado. Descreve quem desprezou todo o conselho durante muito tempo e só grita quando a aflição bate à porta, porque quer escapar ao resultado, não mudar de caminho. O versículo 29 dá a razão: odiaram o conhecimento e não escolheram o temor do Senhor. E o versículo 31 diz o essencial: comerão do fruto do seu caminho. As escolhas dão fruto, e o fruto cresce com o tempo. A sabedoria avisa cedo precisamente porque mais tarde o preço é maior.
O capítulo fecha com uma promessa para quem ouve: habitará em segurança e estará livre do temor do mal (v. 33). Não é a promessa de uma vida sem problemas. É a paz de quem não precisa de viver a olhar para trás, com medo de que o esquema seja descoberto.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, ensina-nos a temer-te antes de querermos saber. > Dá-nos ouvidos para a voz da sabedoria no meio do barulho das ruas. > Livra-nos dos convites que parecem amizade e escondem prejuízo para outros. > Que não esperemos pela tormenta para ouvir o teu conselho. Amém.
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