Orar por quem não quer a sua ajuda
“E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes vos ensinarei o caminho bom e direito.”
Há alguém na sua lista de oração que não pediu para lá estar. Um filho adulto que deixou de ir à igreja e muda de assunto quando você toca no tema. Uma irmã que tomou uma decisão que você considera errada e já avisou que não quer conselhos. Um amigo que, da última vez que você tentou falar, respondeu apenas: "Isso é comigo."
Você continua a orar por essa pessoa, mas a oração sai cansada. Às vezes parece inútil. Outras vezes parece a única coisa que ainda lhe resta, e isso soa a derrota. Vale a pena olhar para alguém da Bíblia que passou exactamente por isto.
Samuel orou por quem o tinha posto de lado
Em 1 Samuel 8, os anciãos de Israel vão ter com Samuel e pedem um rei, como o das outras nações. Samuel tinha julgado o povo durante toda a vida, e o pedido pareceu-lhe mal. A primeira coisa que fez foi orar (1 Samuel 8:6). Deus respondeu-lhe que a rejeição não era só dele: era ao próprio Senhor que o povo estava a rejeitar (1 Samuel 8:7). Samuel avisou-os do que um rei lhes ia custar, e eles não quiseram ouvir (1 Samuel 8:19).
No capítulo 12, Saul já tinha sido proclamado rei em Gilgal. Samuel, já velho, faz o seu discurso de despedida. Lembra ao povo a sua história, pede a Deus trovões e chuva em plena sega do trigo, e o povo, assustado, pede-lhe que ore por eles. É aí, diante de quem recusou o seu conselho, que Samuel diz que deixar de orar por eles seria pecar contra o Senhor. E acrescenta logo que continuará a ensinar-lhes o caminho bom e direito.
Repare em três coisas. Samuel não trata a oração como um favor reservado a quem o tratou bem: trata-a como um dever diante de Deus. A oração não o dispensa de falar: ele ora e ensina. E não volta a discutir a decisão: o rei está escolhido, e Samuel trabalha a partir daí, sem passar o resto da vida a dizer "eu avisei".
Quando a oração é um discurso disfarçado
Há uma forma de orar por quem não quer ajuda que, no fundo, é continuar a discussão com Deus pelo meio. "Senhor, mostra-lhe que está errado. Faz que perceba que eu tinha razão." Repare quantas vezes você aparece nesse pedido.
Um critério simples: se a pessoa ouvisse a sua oração, sentir-se-ia amada ou acusada? Se a resposta for acusada, a oração ainda gira à sua volta. Não precisa de deixar de pedir mudança. Mas comece por pedir por ela, não contra ela: que Deus a guarde onde está agora, que não perca de vista o que já conheceu da verdade, que tenha por perto pessoas sérias, e que a porta entre vocês não se feche.
Jesus orou por Pedro antes de ele cair, e já a pensar no depois. Pediu que a fé dele não desfalecesse e deu-lhe uma tarefa para quando voltasse (Lucas 22:31-32). Interceder também é isto: orar pelo regresso, e não apenas contra a queda.
Diga uma vez e depois cale
Samuel falou com clareza, diante de todos, e não andou depois atrás do povo com indirectas. Muitos pais e irmãos fazem o contrário. Dizem a mesma coisa em todas as visitas, aos bocados, num comentário ao almoço ou numa mensagem com um versículo escolhido a dedo. A pessoa não muda de ideias. Aprende a evitar as visitas.
Se ainda não disse claramente o que pensa, diga-o uma vez, com calma, a sós. Depois feche o assunto com uma frase deste género: "Já disse o que penso e não vou repetir sempre que nos encontrarmos. Continuo aqui, e a porta está aberta." E cumpra.
Um erro a evitar: dizer "estou a orar por si" no meio de uma discussão. Dito assim, soa a sentença, não a amor. Se quiser que a pessoa saiba que ora por ela, diga-o num momento de paz. Ou não diga e simplesmente ore.
Manter a porta aberta sem a forçar
Na parábola do filho pródigo, o pai dá ao filho mais novo a parte dos bens que ele pede, e o filho parte para uma terra longínqua (Lucas 15:12-13). A parábola não mostra o pai a ir buscá-lo. Mostra-o a vê-lo quando ele ainda estava longe, e a correr ao seu encontro (Lucas 15:20). Para ver alguém ao longe, é preciso estar a olhar para a estrada.
Interceder por quem não quer ajuda é isso. Não é controlar o caminho do outro. É manter-se em condições de o receber. Significa não guardar a lista de tudo o que ele fez para a despejar no dia em que voltar. Significa continuar a convidá-lo para o almoço de domingo, mesmo sabendo que talvez não venha. E significa aceitar que pode demorar mais do que você gostaria, sem concluir que Deus não ouviu.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, trazemos-te as pessoas que já não querem ouvir os nossos conselhos. > Livra-nos de orar contra elas quando devíamos orar por elas. > Guarda-as onde estão e não deixes que esqueçam o que já conheceram de ti. > Ensina-nos a falar uma vez, a calar depois e a manter a porta aberta. > Em nome de Jesus, amém.
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