Orar por quem o feriu sem fingir que não dói
“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;”
Você fecha os olhos para orar. Agradece pelo dia, apresenta a família, fala do trabalho. De repente aparece um nome: o colega que o desacreditou à frente do chefe, a cunhada que contou à família uma versão que não é verdadeira, o vizinho que lhe tapa a entrada com o carro e ainda se ri. O estômago aperta. Você salta esse nome e passa ao assunto seguinte.
Ou faz o contrário. Diz depressa "abençoa também o fulano", sem sentir uma palavra, só para ficar com a consciência arrumada. Nas duas saídas há o mesmo problema: a oração deixou de ser uma conversa verdadeira.
O que Jesus pediu, e a quem
A ordem de orar pelos inimigos está no Sermão do Monte. Jesus lembra o que os ouvintes tinham aprendido: amar o próximo e odiar o inimigo. A primeira parte vem da Lei, em Levítico 19:18. A segunda não está lá. Era a forma como muitos liam o mandamento, como se o amor tivesse fronteira. Em Mateus 5:44, Jesus apaga essa fronteira: amar os inimigos, bendizer quem amaldiçoa, orar pelos que maltratam e perseguem.
Repare em quem estava a ouvir. Gente comum, numa terra ocupada por Roma, onde ser obrigado a acompanhar alguém durante uma milha (Mateus 5:41) não era uma imagem teórica. Os inimigos daquelas pessoas tinham rosto e passavam na rua todos os dias.
E a razão que Jesus dá não é que o inimigo mereça. É que o Pai faz nascer o sol sobre maus e bons (Mateus 5:45). Orar por quem o feriu não é dar razão ao outro. É parecer-se com o Pai.
Primeiro conte a Deus o que aconteceu
Muitos cristãos pensam que orar pelo inimigo começa por esconder a raiva. A Bíblia mostra outra ordem. Os Salmos estão cheios de queixas sem verniz. No Salmo 109, David descreve gente que lhe pagou o bem com o mal e o amor com ódio, e diz no meio disso que continua a orar (Salmos 109:4). O mesmo salmo tem pedidos duros, que ninguém deve copiar como modelo para falar do colega de trabalho. Mas mostra uma coisa importante: David pede que a resposta venha da parte do Senhor (Salmos 109:20). Leva a raiva a Deus em vez de a executar com as próprias mãos.
Comece por aí. Diga a Deus, com as palavras que tiver, o que lhe fizeram e quanto lhe custou. Salmos 62:8 convida a derramar o coração perante ele. Só depois de despejar o que pesa há espaço para pedir alguma coisa boa para a outra pessoa. Quem salta este passo acaba com orações educadas e ocas.
O que pedir por alguém que o feriu
É aqui que muita gente fica sem saber o que dizer. "Abençoa-o" parece mentira. "Trata dele" parece praga disfarçada. Um critério ajuda: peça para essa pessoa o que pediria para si mesmo se fosse você a fazer aquele mal. Ninguém, de cabeça fria, pediria para si a ruína. Pediria que alguém lhe abrisse os olhos antes de estragar mais.
Na prática, pode soar assim: "Senhor, mostra-lhe a verdade sobre o que fez. Impede-o de fazer o mesmo a outros. Dá-lhe aquilo de que precisa, mesmo que eu não saiba o que é." Nos dias em que não sai mais nada, basta isto: "Pai, entrego-te esta pessoa. Não quero ser eu a castigá-la."
Um teste simples: se a pessoa ouvisse a sua oração, ouviria um pedido a favor dela ou uma acusação com "amém" no fim? Uma oração como "Senhor, faz que ele reconheça de uma vez que é um mentiroso" costuma ser a mesma discussão, continuada por outro meio.
Jesus, na cruz, pediu ao Pai que perdoasse os que o crucificavam (Lucas 23:34). Estêvão, enquanto o apedrejavam, pediu que aquele pecado não lhes fosse imputado (Atos 7:60). Nenhum dos dois chamou pequeno ao que estava a acontecer. E mesmo assim pediram a favor de quem o fazia.
Orar por alguém não é voltar a confiar
Há um medo que trava muitas pessoas: se eu orar por ele, tenho de fingir que está tudo bem, voltar a emprestar, voltar a contar segredos, voltar a ficar exposto. Não tem. Romanos 12:18 pede paz com todos na medida em que isso depender de nós, o que reconhece que nem tudo depende. E o versículo seguinte manda não fazer vingança pelas próprias mãos, porque a vingança pertence a Deus (Romanos 12:19).
É isso que torna a oração possível. Pedro escreve que Jesus, quando o insultavam, se entregava àquele que julga justamente (1 Pedro 2:23). Quando ora pelo inimigo, você não está a desistir da justiça. Está a pô-la nas mãos certas. E pode fazê-lo mantendo a distância, recusando ficar a sós com essa pessoa ou pedindo ajuda a quem tem autoridade para travar o que está a acontecer.
Também não espere sentir carinho para começar. Jesus mandou orar pelos inimigos. Não disse que a oração tinha de vir acompanhada de afecto. Ofereça a Deus a vontade que tem hoje e deixe o coração nas mãos dele.
Como viver isto hoje
Oração
> Pai, tu conheces os nomes que nos custa dizer diante de ti. > Recebe a nossa mágoa sem que precisemos de a esconder. > Ensina-nos a pedir o bem de quem nos fez mal, como o teu Filho fez na cruz. > Guarda-nos da vingança e dá-nos firmeza para manter os limites necessários. > Em nome de Jesus, amém.
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