Como saber se é Deus falando
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem.”
Há uma decisão grande em cima da mesa — mudar de emprego, terminar um relacionamento, mudar de cidade, aceitar uma proposta — e você já orou sobre ela mais do que uma vez. O problema é que parece ter recebido três respostas diferentes: um pensamento forte durante a oração que aponta para um lado, um conselho de alguém de confiança que aponta para outro, e uma paz estranha sempre que pensa numa terceira opção. Como saber se é Deus falando no meio disto tudo, ou se é apenas o seu próprio desejo vestido de convicção espiritual?
Imagine alguém que, depois de meses infeliz no emprego, começou a orar pedindo direcção sobre sair ou ficar. Durante uma dessas orações, sentiu um impulso forte: "é agora, deves demitir-te já." Sentiu tanta certeza que quase entregou a carta no dia seguinte. Um amigo, ao ouvir a história, perguntou apenas uma coisa: "isso que sentiste combina com o que já sabes que é sensato fazer, ou é só o teu cansaço a falar mais alto?" A pergunta incomodou, porque a pessoa percebeu que a "certeza" que sentira tinha nascido, na verdade, do desespero de sair dali o mais depressa possível, não de uma direcção calma e ponderada. O desejo de fugir tinha-se disfarçado de voz de Deus, e quase levou a uma decisão precipitada.
Este é o ponto onde a maioria de nós tropeça: confundir a intensidade de um sentimento com a certeza de que ele vem de Deus. Quanto mais forte é o desejo, mais fácil é interpretá-lo como confirmação divina, precisamente porque queremos muito que seja verdade. A pergunta certa não é "senti isto com muita força?", mas "isto combina com o carácter de Deus, com a sua Palavra e com o conselho sensato à minha volta?"
Os filtros: Palavra, paz, conselho, fruto
Há quatro filtros simples que ajudam a testar se algo veio de Deus, sem depender apenas da intensidade do sentimento. O primeiro é a Palavra: aquilo que sentiu contraria algum princípio claro da Escritura, ou está em linha com ele? Deus não se contradiz a si mesmo. O segundo é a paz: não uma paz que aparece só quando pensa na opção que já quer escolher, mas uma paz estável, que se mantém mesmo quando examina a decisão com calma e sem pressa. O terceiro é o conselho: pessoas maduras na fé, que o conhecem bem e não têm interesse pessoal na sua decisão, confirmam aquilo que sentiu, ou levantam preocupações sérias? O quarto é o fruto: seguir aquele caminho tende a produzir mais amor, mais paciência, mais integridade — ou já se vê a justificar comportamentos que sabe que não são certos, só para chegar lá?
Jesus disse que as suas ovelhas ouvem a sua voz e o seguem, o que indica algo importante: a voz de Deus, embora possa ser reconhecida, precisa de uma relação construída ao longo do tempo, feita de Escritura, oração e obediência, para que a diferença entre a voz dele e o barulho dos próprios desejos se torne mais clara.
Por que o desejo forte imita a voz de Deus
O desejo forte é convincente porque usa a mesma linguagem interior da fé: certeza, paz, insistência. Quando quer muito uma coisa, o pensamento produz argumentos a favor dela com uma facilidade impressionante, e é fácil confundir essa fluência de raciocínio com confirmação espiritual. Isto não significa que todo desejo forte esteja errado — às vezes Deus usa exactamente um desejo genuíno para conduzir a algo bom. Significa apenas que o desejo, sozinho, nunca é prova suficiente. Precisa de ser testado ao lado dos outros filtros, não isolado deles.
Teste prático antes de decidir
Antes de agir sobre uma decisão grande, vale a pena esperar um período curto e definido — alguns dias, ou uma ou duas semanas, dependendo da urgência real da situação — e usar esse tempo para passar a decisão pelos quatro filtros de forma deliberada, não apenas mental. Escreva o que a Escritura diz sobre o assunto. Escreva se a paz se mantém depois de dormir sobre o assunto várias noites. Fale com pelo menos duas pessoas maduras, sem lhes dizer antecipadamente o que espera ouvir delas. Observe se a decisão o está a aproximar de um carácter mais parecido com o de Cristo, ou se já está a torcer princípios para justificar o que quer.
Quando isto não parece resultar
Pode acontecer de passar por todos estes filtros e continuar sem uma certeza absoluta. Isso é normal, e o erro mais comum aqui é esperar uma clareza total antes de agir, como se Deus fosse sempre falar de forma inconfundível. Muitas vezes ele guia através de uma paz razoável e de sabedoria prática, não de um sinal espectacular. Se depois de orar, consultar a Palavra e ouvir conselho sensato a decisão continuar dividida, escolha o caminho que melhor honra os princípios que já conhece com clareza, e confie que Deus continua a guiar mesmo os passos dados com uma certeza incompleta.
Como viver isto hoje
> Senhor, ajude-nos a reconhecer a sua voz no meio de tantas outras vozes, incluindo a nossa própria vontade. > Dê-nos paz verdadeira para as decisões certas, e desconforto claro para as que não devemos tomar. > Ponha ao nosso lado pessoas sábias que nos ajudem a ver o que sozinhos não conseguimos. > Obrigado por continuar a guiar-nos mesmo quando a certeza demora a chegar.
A decisão em cima da mesa continua a exigir uma escolha, mas agora já não depende só de qual sinal parece mais forte no momento. Depende de um processo mais completo, que junta Palavra, paz, conselho e fruto antes de qualquer passo — essa é, afinal, a forma mais segura de saber se é Deus falando ou apenas um desejo disfarçado. Guarde este artigo para a próxima vez que precisar de discernir uma decisão importante; vai precisar dele mais cedo do que imagina.
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