Quem promete muito, entrega pouco
“Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não; porque o que passa disto é procedente do mal.”
Conta comigo, disse ao irmão, como já lhe tinha dito tantas vezes antes.
A frase saiu automática, no calor do pedido. É reconfortante dizê-la. É agradável ouvi-la. Mas entre o reflexo social e a intenção real há um abismo, e é nesse abismo que se gasta a confiança que os outros depositam em nós.
Um amigo pede ajuda para se mudar de casa num sábado. Você aceita sem hesitar. No dia marcado, surge uma desculpa de última hora, e ele fica sozinho com as caixas. Não é crime. Mas a relação sofre um ferimento pequeno: o próximo conta comigo vai ser ouvido com mais cautela.
Cada promessa não cumprida custa um ponto
Cada falha diminui a sua credibilidade, ainda que ninguém aponte o problema em voz alta. As pessoas ajustam silenciosamente o valor que dão às suas próximas palavras. O ajuste acumula-se: a palavra perde peso, mesmo que continue a ser dita com entusiasmo.
Quem promete muito e cumpre pouco percebe, com o tempo, que é menos procurado para tarefas importantes. Raramente sabe porquê. A explicação está numa série de pequenos compromissos não honrados que ninguém chegou a mencionar.
O ensino de Jesus é directo: deixe o sim ser sim e o não ser não. Não se trata só de evitar mentiras óbvias. Trata-se de não inflar a sua fala com promessas que não sustenta. Uma palavra simples e cumprida vale mais do que um discurso grandioso e vazio.
Prometa menos, entregue completo
A solução não é evitar compromissos. É calibrar as promessas ao que realmente pode cumprir. Antes de responder a um pedido, pare um momento em vez de ceder ao impulso de agradar.
Em vez de sim, claro, conta comigo, diga: deixa-me ver a agenda e já te respondo. Parece menos generoso, mas uma resposta pensada vale muito mais do que uma promessa apressada que depois falha.
Há diferença entre prometer um resultado incerto e prometer um esforço real. Vou tentar estar lá, mas não garanto é honesto. Conta comigo dito com certeza absoluta gera decepção quando a realidade não corresponde.
Quando o compromisso já não é possível
Às vezes uma promessa de boa-fé torna-se inviável. Acontece a todos. O que muda é como se lida com isso.
O caminho mais prejudicial é o silêncio: deixar a pessoa à espera até a falha ficar evidente. O caminho certo é avisar assim que percebe que não vai cumprir, com a maior antecedência possível, explicando com clareza, sem desculpas rebuscadas nem novas promessas que também não vai cumprir.
Recuar com honestidade mostra respeito. Desaparecer sem avisar diz, sem palavras, que o acordo nunca foi levado a sério.
E se a confiança já estiver gasta?
Se a confiança já está desgastada por falhas passadas, não se reconstrói com uma única acção. Reconstrói-se com uma sequência consistente ao longo do tempo. Não há atalho.
Se costuma prometer mais do que consegue cumprir, examine a sua dificuldade em dizer não. O excesso de promessas nasce quase sempre do medo de desapontar no momento do pedido, não de má-fé.
Como viver isto hoje
Oração
> Senhor, perdoa-nos as promessas ditas por reflexo e não cumpridas por descuido. Ensina-nos a deixar o nosso sim ser sim e o nosso não ser não, com integridade em cada palavra. Dá-nos coragem para recuar com honestidade quando for preciso, em vez de deixar o silêncio falar por nós. Em nome de Jesus, amém.
Há uma promessa pendente na sua vida agora. Provavelmente mais do que uma. Escolha resolver pelo menos uma antes do dia acabar: cumpra-a de facto, ou avise com honestidade. A sua palavra vale o que a sua acção lhe confere.
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