Duvidar de Deus é pecado?
“E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade.”
No culto, você levanta as mãos e canta com convicção. Vinte minutos depois, já dentro do carro, a caminho de casa, uma pergunta incómoda aparece sem avisar: e se nada disto for verdade? Você afasta o pensamento depressa, com um misto de vergonha e medo, como se duvidar fosse uma traição que precisa de ser escondida até de si mesmo. A questão que fica, sem coragem de perguntar a ninguém na igreja, é directa: duvidar de Deus é pecado?
No evangelho de Marcos há uma cena curta que responde a isto melhor do que qualquer explicação teórica. Um pai leva o filho a Jesus, um menino que sofre há anos com uma condição grave, e antes de qualquer coisa, o pai já tinha levado o rapaz aos discípulos, que não conseguiram ajudar. Chega então junto de Jesus e diz, com uma condição na frase: "se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos." Jesus responde, quase a repetir as palavras do pai: "se podes! tudo é possível ao que crê." E o pai, ali mesmo, sem tempo para arrumar a resposta, clama em voz alta e com lágrimas: "creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade." Ele não escondeu a dúvida. Trouxe-a para dentro da própria oração, junto com o pouco de fé que tinha, e pediu ajuda para as duas coisas ao mesmo tempo.
Repare no que aquele pai não fez: não fingiu ter uma fé maior do que tinha, não escondeu a incerteza atrás de palavras bonitas, e também não desistiu de pedir por causa da dúvida. Foi exactamente ao contrário do que a maioria de nós faz quando duvida — em vez de esconder, ele expôs; em vez de calar, ele pediu ajuda para a própria fraqueza. E é aqui que a pergunta muda de figura: talvez o problema nunca tenha sido duvidar, mas sim o que fazemos com a dúvida quando ela aparece.
Dúvida honesta x incredulidade
Há uma diferença real entre duvidar e recusar-se a acreditar. A dúvida honesta é uma pergunta que continua aberta diante de Deus: "não estou a conseguir entender, ajuda-me a ver com mais clareza." A incredulidade é uma porta fechada, uma decisão de não confiar, independentemente do que aconteça. A primeira convive com a oração, a busca e a Escritura; a segunda evita todas essas coisas porque já decidiu o resultado antes de olhar para as provas.
O crente que canta no culto e duvida no carro, na maioria das vezes, não está a viver incredulidade. Está a viver dúvida honesta, um período em que a mente faz perguntas que o coração ainda não sabe responder. Isso não é o mesmo que rejeitar Deus. É, muitas vezes, o início de uma fé que está prestes a ficar mais firme, precisamente porque deixou de ser automática e passou a ser examinada.
O pai que pediu ajuda para a própria falta de fé
O que torna a cena de Marcos tão marcante é que Jesus não repreendeu o pai por ter dúvida. Não lhe disse "devias ter mais fé antes de vir aqui". Atendeu ao pedido, com a fé pequena e imperfeita que o homem trouxe consigo. Isto diz algo importante sobre como Deus lida com a dúvida sincera: ele não exige uma fé perfeita antes de se aproximar de nós; recebe a fé que existe, mesmo misturada com incerteza, e trabalha a partir dali.
Isto muda a forma como devia encarar aquele momento no carro depois do culto. Em vez de esconder a pergunta com vergonha, pode levá-la a Deus com a mesma honestidade do pai do menino: "Creio, mas ajuda a minha falta de fé nesta área." Não é uma oração de derrota. É, na verdade, um dos actos de fé mais sinceros que existem, porque reconhece a fraqueza sem se afastar de Deus por causa dela.
O que fazer com a dúvida em vez de a esconder
Esconder a dúvida costuma piorá-la, porque uma pergunta não respondida cresce em silêncio. O caminho mais saudável é trazer essa dúvida para três lugares ao mesmo tempo: para a oração, dizendo com sinceridade o que sente; para a Escritura, procurando o que ela realmente diz sobre a questão que o incomoda, em vez de opiniões soltas; e para uma conversa com alguém maduro na fé, que já tenha atravessado dúvidas parecidas e possa caminhar consigo sem julgamento. Guardar a dúvida só para si, com medo de parecer um crente fraco, tira-lhe justamente os recursos que ajudariam a resolvê-la.
Quando isto não parece resultar
Pode acontecer de trazer a dúvida para a oração e para a Escritura e, mesmo assim, ela continuar ali, sem resposta clara. O erro mais comum, nesse ponto, é achar que isso prova que a fé falhou. Não prova. Há perguntas que levam anos a encontrar resposta, e outras que talvez nunca encontrem uma resposta completa deste lado da vida. Continuar a confiar em Deus no meio de uma pergunta sem resposta não é fraqueza — é precisamente o tipo de fé que o pai do menino demonstrou, uma fé que pede ajuda em vez de fingir que não precisa dela.
Como viver isto hoje
> Senhor, cremos, mas ajuda a nossa falta de fé nas áreas onde ainda duvidamos. > Não deixe que a vergonha nos faça esconder as perguntas que trazemos por dentro. > Ensine-nos a trazer a dúvida para diante de si, como o pai daquele menino trouxe a sua. > Obrigado por não exigir uma fé perfeita antes de nos ouvir.
Da próxima vez que cantar no culto e duvidar no carro, talvez já não sinta aquela vergonha de antes. A pergunta continua a existir, mas agora sabe onde a levar: não para o silêncio, mas para a mesma oração sincera do pai que disse "ajuda a minha incredulidade". Duvidar de Deus, quando levado a ele com honestidade, deixa de ser um pecado escondido e passa a ser o início de uma fé mais firme. Se este tema lhe tocou, leia também o nosso artigo sobre como orar quando a oração parece seca — a dúvida e a secura espiritual costumam andar muito próximas.
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