Quando a igreja te decepciona
“Melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem.”
Há meses que você não vai à igreja, e sabe exactamente o motivo, mesmo que evite dizê-lo em voz alta: uma mágoa com alguém de dentro da própria comunidade, um comentário injusto, uma decisão que o feriu, um irmão ou irmã que agiu de forma que nunca esperaria de alguém que se diz cristão. No início eram só algumas semanas de distância, "só até passar a raiva". Agora já se tornou hábito, e cada domingo em casa parece mais fácil do que voltar a enfrentar aquele espaço onde a mágoa aconteceu. A pergunta que fica, sem coragem de a partilhar com ninguém, é: como se continua a acreditar em Deus quando a decepção com a igreja pesa tanto?
O Salmo 118 traz uma frase curta, quase óbvia à primeira vista, mas que carrega um peso enorme quando aplicada a uma mágoa deste tipo: "melhor é confiar no Senhor do que confiar no homem." Esta frase não nega que as pessoas magoam — pelo contrário, só faz sentido porque as pessoas realmente magoam, incluindo pessoas de fé, incluindo líderes, incluindo gente que devia saber fazer melhor. O salmista não está a dizer "as pessoas nunca decepcionam"; está a dizer que a confiança final não deve estar depositada nelas, precisamente porque, sendo humanas, vão falhar em algum momento.
Imagine alguém que, depois de anos a servir fielmente numa área da igreja, foi tratado com injustiça por uma decisão de liderança que considerou errada e mal explicada. A mágoa foi tão grande que a pessoa decidiu afastar-se de tudo, não só daquela função, mas de qualquer participação na igreja. Meses depois, ao reflectir com mais calma, percebeu algo incómodo: tinha deixado que a falha de uma pessoa determinasse a sua relação inteira com Deus e com a comunidade de fé, como se a igreja e Deus fossem a mesma coisa, e como se um erro humano anulasse tudo o resto que ali tinha vivido de genuíno ao longo dos anos.
Separar Deus das pessoas
A igreja é feita de pessoas, e pessoas falham, incluindo as mais bem-intencionadas. Confundir a decepção com uma pessoa da igreja com uma decepção com Deus é um erro fácil de cometer, porque a igreja é o lugar visível onde vivemos a fé em comunidade — mas Deus e a igreja não são a mesma coisa. Ele é perfeito; a comunidade que o segue não é, e nunca vai ser, enquanto for feita de gente real, com falhas reais. Reconhecer isto não desculpa o erro que aconteceu, nem diminui a dor que causou. Apenas evita que uma mágoa legítima com uma pessoa se transforme, sem necessidade, numa distância de Deus.
O custo real de se afastar
Afastar-se por completo da comunidade de fé, mesmo depois de uma mágoa justificada, tem um custo que raramente se vê de imediato. A fé foi sempre pensada para ser vivida em conjunto, com apoio mútuo, correcção fraterna e encorajamento que ninguém consegue dar a si mesmo sozinho em casa. Meses de ausência tendem a esfriar hábitos espirituais que antes eram naturais — a oração em conjunto, o cântico, o simples encontro com outros que caminham na mesma fé. O afastamento pode parecer, no início, um alívio da dor; com o tempo, revela-se também um afastamento de recursos que ajudariam precisamente a curar essa mesma dor.
Como voltar sem fingir que nada aconteceu
Voltar não significa fingir que a mágoa nunca existiu, nem engolir a injustiça como se não tivesse importância. Significa, primeiro, ser honesto consigo mesmo sobre o que sentiu e, quando for saudável e possível, conversar directamente com a pessoa envolvida ou com uma liderança madura sobre o que aconteceu, em vez de deixar tudo por resolver em silêncio. Significa também escolher voltar a um espaço de fé, que pode ou não ser exactamente o mesmo de antes, sem exigir que a mágoa desapareça de um dia para o outro. É possível voltar ainda a processar a dor — voltar não é o ponto final da cura, é parte do próprio processo dela.
Quando isto não parece resultar
Pode acontecer de tentar conversar sobre a mágoa e não encontrar abertura do outro lado, ou de voltar e sentir-se ainda desconfortável durante algum tempo. O erro mais comum aqui é esperar que voltar resolva tudo de imediato, como se a simples presença física apagasse a ferida. Não apaga. A cura de uma mágoa deste tipo costuma ser gradual, e às vezes exige também apoio pastoral específico para conversar sobre o que aconteceu com mais profundidade do que uma reflexão sozinha consegue alcançar.
Como viver isto hoje
> Senhor, confiamos mais no senhor do que em qualquer pessoa, mesmo quando pessoas da igreja nos magoam profundamente. > Ajude-nos a separar a sua fidelidade das falhas humanas que encontramos pelo caminho. > Dê-nos coragem para tratar a mágoa com honestidade, sem fugir nem fingir que ela não existe. > Obrigado por continuar fiel, mesmo quando as pessoas ao nosso redor falham.
Os meses em casa talvez continuem a parecer mais confortáveis do que voltar, mas agora já sabe distinguir o que realmente aconteceu: uma pessoa falhou, não Deus, e a decepção com a igreja não precisa de significar o fim da sua fé. Se está a viver algo parecido, comente aqui a sua experiência sem citar nomes — pode ser exactamente o que outra pessoa, também afastada há meses, precisa de ler hoje.
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